Saúde Única e resistência microbiana nos laboratórios | Newslab

Saúde Única amplia o papel dos laboratórios no enfrentamento à resistência microbiana

Celebrado em 3 de novembro, o Dia Mundial e Nacional da Saúde Única destaca a conexão entre saúde humana, animal e ambiental. Em 2026, a programação da OMS reforça a prevenção e a vigilância integrada

O resultado de uma análise microbiológica pode orientar o tratamento de um paciente e contribuir para a vigilância da resistência aos antimicrobianos. Quando articuladas a informações dos setores animal e ambiental, essas evidências permitem investigar o problema de forma mais abrangente. Essa integração é uma das aplicações da Saúde Única, abordagem que aproxima o diagnóstico laboratorial das estratégias de prevenção e resposta às ameaças à saúde.

Celebrado em 3 de novembro, o Dia Mundial da Uma Só Saúde coincide com o Dia Nacional da Saúde Única, instituído no Brasil pela Lei nº 14.792, de 5 de janeiro de 2024. A legislação estabelece como objetivo conscientizar a sociedade sobre a relação indissociável entre as saúdes humana, animal e ambiental.

Prevenção em foco

Em 2026, a programação da Organização Mundial da Saúde para a data destaca a identificação e o enfrentamento de riscos em sua origem. Um webinar da instituição aborda experiências de vigilância integrada, compartilhamento de informações e cooperação entre setores. Esse é o foco da atividade da OMS, sem constituir um tema mundial único para a celebração.

Para os laboratórios, a discussão tem uma dimensão concreta. Produzir resultados confiáveis é parte do trabalho. Organizar sua utilização na assistência e na vigilância amplia a contribuição do diagnóstico para a saúde pública.

Saúde humana, animal e ambiental na mesma investigação

Conhecida internacionalmente como One Health, a Saúde Única reconhece a interdependência entre pessoas, animais domésticos e silvestres, plantas e ecossistemas. Segundo a OMS, a colaboração entre disciplinas e setores ajuda a enfrentar doenças infecciosas emergentes, resistência aos antimicrobianos e riscos relacionados à segurança dos alimentos. A abordagem compreende prevenção, detecção, preparação e resposta.

No Brasil, o Ministério da Saúde inclui entre suas aplicações a vigilância de zoonoses, a preparação para epidemias e pandemias e o controle de contaminantes químicos, físicos e biológicos. O conceito pressupõe a participação de instituições com diferentes competências e a construção de respostas conjuntas.

A resistência aos antimicrobianos torna essa conexão especialmente relevante para a microbiologia. Seu monitoramento em amostras humanas, animais e ambientais exige uma estrutura capaz de reunir informações de diferentes origens e responder a perguntas epidemiológicas definidas. O protocolo Tricycle, desenvolvido pela OMS, oferece um exemplo de como organizar essa investigação.

Uma bactéria como indicador comum

O Tricycle utiliza Escherichia coli produtora de betalactamases de espectro estendido, identificadas pela sigla ESBL, como indicador para a vigilância integrada da resistência.

O modelo contempla amostras humanas, aves e corpos d’água, incluindo esgoto e pontos de rios em áreas urbanas. A escolha de um indicador comum permite estruturar o monitoramento nos três setores dentro de uma proposta coordenada. O módulo de Saúde Única do Sistema Global de Vigilância da Resistência e do Uso de Antimicrobianos da OMS, GLASS, foi desenvolvido para permitir o compartilhamento desses dados.

O que o Tricycle conecta

Setor humano. Investigação do indicador em amostras humanas.

Setor animal. Monitoramento em aves, dentro do componente da cadeia alimentar.

Setor ambiental. Pesquisa em águas, incluindo esgoto e pontos de rios urbanos.

Publicado em 2021, o protocolo apresenta metodologias padronizadas e foi concebido para favorecer a implementação inclusive em locais com recursos limitados. A OMS propõe que essa estrutura inicial possa sustentar a expansão da vigilância para outros patógenos, mecanismos de resistência e regiões de um país.

O exemplo mostra como o conceito pode orientar o desenho de uma investigação. Antes de reunir resultados, é preciso definir o que será monitorado, como as amostras serão analisadas e quais perguntas os dados poderão ajudar a responder.

A capacidade diagnóstica sustenta a prevenção

Na assistência, os exames microbiológicos apoiam o manejo de infecções e o uso adequado de antimicrobianos. Sua contribuição alcança os programas de prevenção e controle de infecções, a investigação de surtos e a vigilância de rotina da resistência.

Essas funções estão entre as prioridades da iniciativa da OMS para diagnóstico da resistência aos antimicrobianos, apresentada em 2024. A proposta defende o fortalecimento dos laboratórios de microbiologia e o acesso equitativo a testes de qualidade para patógenos bacterianos, fúngicos e resistentes.

A iniciativa reúne orientações para os serviços de bacteriologia e micologia, avaliação da capacidade diagnóstica, uma rede global de laboratórios e pesquisa para aperfeiçoar a precisão, a rapidez e a utilização dos testes. O documento relaciona a disponibilidade do diagnóstico ao uso apropriado de seus resultados no cuidado e nas ações de saúde pública.

Da análise à decisão

A informação laboratorial precisa chegar aos profissionais e serviços responsáveis por interpretar os achados e conduzir as medidas necessárias.

Alimentos integram o monitoramento brasileiro

No Brasil, uma iniciativa da Anvisa aplica os princípios da Saúde Única ao monitoramento de alimentos. O projeto piloto do Programa Nacional de Monitoramento dos Resíduos de Antimicrobianos e Microrganismos Resistentes em Alimentos foi estruturado para o biênio 2025/2026.

O programa contempla duas frentes analíticas. Uma avalia a presença e o perfil de resistência de microrganismos em alimentos comercializados no varejo nacional. A outra busca detectar e quantificar resíduos de antimicrobianos nesses produtos.

A execução envolve a Anvisa, órgãos estaduais e municipais de vigilância sanitária e laboratórios oficiais de saúde pública. Segundo a agência, os dados devem subsidiar ações de vigilância sanitária e políticas públicas de enfrentamento à resistência microbiana.

A iniciativa evidencia a participação de diferentes áreas laboratoriais em uma mesma agenda de saúde pública, com objetivos próprios de análise e uma finalidade compartilhada de vigilância.

A agenda internacional avança até 2029

A cooperação internacional em Saúde Única recebeu continuidade formal em agosto de 2026. A Aliança Quadripartite anunciou a extensão do Plano de Ação Conjunto de Uma Só Saúde até 2029, ampliando seu período original de implementação, previsto para 2022 a 2026.

A aliança reúne OMS, Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente e Organização Mundial de Saúde Animal. A extensão mantém uma referência comum para apoiar os países na prevenção, detecção e resposta aos riscos na interface entre seres humanos, animais, plantas e ecossistemas.

Nesse período, as organizações preveem revisar os avanços, as experiências de implementação e as prioridades emergentes para orientar a próxima fase do plano.

A programação da OMS para 3 de novembro aproxima essa agenda do trabalho cotidiano ao destacar a vigilância integrada e o compartilhamento de informações como instrumentos de prevenção. Para o setor laboratorial, o desafio está em dar continuidade ao percurso da amostra até a decisão, com capacidade diagnóstica, resultados confiáveis e comunicação entre os serviços que precisam agir sobre as evidências.