Vacinação contra HPV: consultas por lesões caem 77% | Newslab

Vacinação contra HPV acompanha queda de 77% nos atendimentos por lesões pré-cancerígenas em adolescentes

Estudo nacional identifica redução expressiva de lesões cervicais de alto grau após a introdução da vacina no SUS e reforça a importância da imunização, do diagnóstico precoce e do rastreamento molecular na prevenção do câncer do colo do útero

A vacinação contra o papilomavírus humano (HPV) começa a revelar resultados importantes na prevenção de alterações celulares associadas ao câncer do colo do útero no Brasil. Um estudo publicado no periódico científico Human Vaccines & Immunotherapeutics identificou uma redução expressiva nas primeiras consultas por lesões cervicais de alto grau entre adolescentes de 15 a 19 anos.

Os resultados, obtidos a partir de registros nacionais do Sistema Único de Saúde (SUS), oferecem novas evidências sobre o impacto populacional da imunização e destacam a importância da vigilância epidemiológica, do diagnóstico laboratorial e das estratégias integradas de prevenção do câncer cervical.

Evidência epidemiológica

77% de redução

Queda aproximada no número de primeiras consultas por lesões cervicais de alto grau entre adolescentes de 15 a 19 anos, na comparação entre 2015 e 2023. O indicador se refere aos atendimentos registrados no SUS, e não diretamente à incidência de câncer.

Queda nos atendimentos revela mudança no perfil epidemiológico

A pesquisa analisou registros do Sistema de Informações Ambulatoriais do SUS (SIA/SUS), considerando atendimentos relacionados a neoplasias intraepiteliais cervicais de alto grau, alterações do epitélio do colo uterino que apresentam potencial de progressão para malignidade.

Entre adolescentes de 15 a 19 anos, o número de primeiras consultas por essas lesões passou de 474 em 2011 para 603 em 2015. A partir desse período, os registros apresentaram redução progressiva, chegando a 299 em 2019 e 136 em 2023.

Evolução das primeiras consultas

2011: 474 registros

2015: 603 registros

2019: 299 registros

2023: 136 registros

Valores absolutos de primeiras consultas registradas entre adolescentes de 15 a 19 anos. Barras proporcionais ao maior valor da série apresentada.

A tendência permaneceu evidente após o ajuste para o tamanho da população. Em 2015, a taxa era de 7,1 primeiras consultas por 100 mil adolescentes. Em 2023, havia recuado para 1,8 por 100 mil, resultado inferior aos 5,5 registros por 100 mil observados em 2011, antes da implantação do programa nacional de vacinação.

O comportamento se destacou entre as diferentes faixas etárias avaliadas. Mulheres mais velhas, que tiveram menor exposição inicial à estratégia de vacinação, não apresentaram reduções equivalentes. Esse contraste fortalece a hipótese de associação entre a imunização de adolescentes e a diminuição dos atendimentos por lesões precursoras do câncer cervical.

Análise estatística estima milhares de atendimentos potencialmente evitados

Para investigar a relação entre a vacinação e as mudanças observadas, os pesquisadores utilizaram um modelo quase experimental de séries temporais interrompidas. A metodologia permitiu comparar os registros posteriores à introdução da vacina com uma projeção construída a partir das tendências anteriores à imunização.

No período posterior ao início da vacinação, considerado na análise estatística até 2019, foram contabilizadas 2.620 primeiras consultas entre adolescentes de 15 a 19 anos. Na projeção de um cenário sem vacinação, o modelo estimou 7.688 atendimentos.

O que os números indicam

Cerca de 5 mil consultas a menos

A diferença entre os registros observados e a projeção estatística representa uma estimativa de atendimentos potencialmente evitados. Não corresponde a uma contagem direta de casos de câncer prevenidos.

Outro aspecto relevante foi a utilização de indicadores de controle. Enquanto os atendimentos relacionados às lesões cervicais diminuíram entre adolescentes, as primeiras consultas por outras infecções sexualmente transmissíveis, não relacionadas ao HPV, aumentaram. Nesse grupo, a taxa passou de 1,7 para 10,8 atendimentos por 100 mil adolescentes entre 2015 e 2023.

Esse comportamento divergente reduz a plausibilidade de que a queda nas lesões cervicais seja explicada exclusivamente por mudanças na utilização dos serviços de saúde.

Embora os dados descritivos abranjam até 2023, os pesquisadores limitaram a modelagem estatística a 2019, procurando evitar possíveis distorções provocadas pela pandemia de covid-19 sobre o acesso aos serviços ambulatoriais.

Interpretação científica

Por se tratar de um estudo observacional baseado em registros administrativos, os resultados não permitem atribuir individualmente cada redução à vacinação. Também não devem ser interpretados como uma diminuição equivalente da incidência de câncer invasivo. O conjunto das análises, entretanto, apresenta evidências consistentes de um efeito populacional favorável da imunização.

O trabalho recebeu financiamento da Merck Sharp & Dohme (MSD), fabricante de vacinas contra o HPV, e incluiu pesquisadores vinculados à empresa e a uma instituição contratada para a pesquisa. Essas relações foram declaradas na publicação científica.

Da infecção persistente às lesões precursoras do câncer

A relevância dos resultados está diretamente relacionada à história natural da infecção pelo HPV.

Embora a maioria das infecções seja eliminada espontaneamente pelo sistema imunológico, a persistência de genótipos oncogênicos pode desencadear alterações celulares progressivas no epitélio cervical.

Os tipos HPV 16 e 18 apresentam particular importância clínica por sua associação com o desenvolvimento do câncer do colo do útero. A vacina quadrivalente utilizada originalmente no Programa Nacional de Imunizações oferece proteção contra esses dois genótipos de alto risco e contra os tipos 6 e 11, associados principalmente às verrugas anogenitais.

Entenda a progressão das lesões cervicais

Infecção por HPV oncogênico

A maioria das infecções é transitória. A persistência viral representa o principal fator de risco para alterações precursoras.

Neoplasia intraepitelial cervical

Alterações de alto grau, como NIC 2 e NIC 3, exigem investigação e condutas clínicas específicas, conforme a classificação histopatológica e o contexto da paciente.

Possível progressão para doença invasiva

Sem acompanhamento e tratamento adequados, determinadas lesões podem evoluir para câncer cervical ao longo dos anos.

As neoplasias intraepiteliais cervicais de alto grau constituem alterações precursoras cuja identificação permite intervenções antes da evolução para doença invasiva.

Nesse contexto, a redução de atendimentos por lesões de alto grau representa um indicador relevante de prevenção. O benefício pode ser identificado anos antes de uma diminuição expressiva na incidência de câncer cervical, cuja evolução costuma ocorrer ao longo de períodos prolongados.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece a vacinação contra o HPV como uma das principais medidas de prevenção primária do câncer do colo do útero. Entretanto, a imunização não elimina a necessidade de rastreamento, uma vez que as vacinas disponíveis não contemplam todos os genótipos oncogênicos.

Diagnóstico molecular amplia as perspectivas de prevenção

Os resultados ganham relevância em um momento de transformação das estratégias brasileiras de rastreamento do câncer do colo do útero.

Em 2025, o Ministério da Saúde aprovou novas diretrizes nacionais que estabelecem a utilização de testes moleculares para detecção do DNA de HPV oncogênico como método de rastreamento primário.

A mudança representa uma evolução em relação ao modelo tradicional fundamentado principalmente na citologia cervical, conhecida como exame de Papanicolau.

Com maior sensibilidade para a identificação de infecções por tipos de HPV de alto risco, o teste molecular permite reconhecer mulheres com maior probabilidade de desenvolver alterações precursoras, antes mesmo do aparecimento de anormalidades citológicas identificáveis.

Novo paradigma do rastreamento

Teste molecular de HPV como exame primário

As diretrizes nacionais de 2025 contemplam mulheres de 25 a 64 anos, com intervalo de cinco anos entre os exames quando o resultado molecular é negativo, respeitadas as recomendações clínicas e situações específicas.

A implementação no SUS ocorre de maneira progressiva, conforme a organização da rede assistencial.

A citopatologia, a colposcopia e o exame histopatológico permanecem fundamentais na investigação de resultados alterados e na confirmação diagnóstica das lesões.

Para os laboratórios de análises clínicas e os serviços de anatomia patológica, a transição amplia a importância da qualidade analítica dos testes moleculares, da interpretação dos resultados e da integração entre diagnóstico, encaminhamento e acompanhamento clínico.

A prevenção efetiva depende de um percurso assistencial completo, desde a identificação de uma infecção de risco até a investigação e o tratamento das alterações que necessitam de intervenção.

Câncer do colo do útero ainda representa um desafio para o Brasil

Apesar dos avanços na imunização, o câncer cervical permanece entre as neoplasias de maior impacto sobre a saúde feminina no país.

Estimativa de incidência no Brasil

19.310

novos casos anuais estimados de câncer do colo do útero para o triênio 2026 a 2028.

Fonte: Instituto Nacional de Câncer (INCA).

Segundo o INCA, o câncer do colo do útero ocupa a terceira posição entre os tipos de câncer mais incidentes na população feminina brasileira, excluídos os tumores de pele não melanoma.

A persistência dessa carga epidemiológica evidencia a importância de ampliar o acesso à prevenção, especialmente em populações com menor cobertura vacinal e dificuldades para realizar exames e receber acompanhamento especializado.

Cobertura vacinal e recuperação de doses são decisivas

Introduzida no SUS em 2014, inicialmente para meninas, a vacinação contra o HPV passou a contemplar meninos a partir de 2017, ampliando a proteção contra doenças associadas ao vírus.

Atualmente, o calendário brasileiro prevê dose única da vacina para meninas e meninos de 9 a 14 anos. Esquemas específicos são destinados a grupos com condições clínicas ou situações de maior vulnerabilidade, conforme recomendações do Programa Nacional de Imunizações.

Em 2026, o Ministério da Saúde também prorrogou até 31 de dezembro a estratégia de recuperação vacinal para adolescentes e jovens de 15 a 19 anos que não receberam a vacina na idade recomendada ou não possuem registro de imunização.

A medida busca alcançar pessoas que permaneceram fora da cobertura inicial e reduzir a vulnerabilidade de novas gerações às doenças associadas ao HPV.

Estratégia global da OMS

Metas 90, 70, 90 para 2030

90%

Das meninas vacinadas contra o HPV até os 15 anos de idade.

70%

Das mulheres rastreadas com testes de alto desempenho até os 35 anos e novamente até os 45 anos.

90%

Das mulheres com lesões precursoras ou câncer recebendo o tratamento indicado.

No cenário internacional, a OMS estabelece essas metas para acelerar a eliminação do câncer do colo do útero como problema de saúde pública.

O objetivo de longo prazo é reduzir a incidência da doença para menos de quatro novos casos por 100 mil mulheres ao ano.

Uma mudança que começa antes do diagnóstico do câncer

A diminuição das consultas por lesões cervicais de alto grau entre adolescentes brasileiras representa um sinal relevante dos benefícios da vacinação contra o HPV.

O estudo demonstra o valor dos registros ambulatoriais para identificar mudanças no perfil epidemiológico de condições precursoras de câncer e acompanhar, ao longo do tempo, os resultados das políticas de prevenção.

Para o setor de medicina laboratorial, os resultados reforçam a importância da articulação entre imunização, rastreamento molecular, avaliação citopatológica, diagnóstico histopatológico e acompanhamento clínico.

O desafio agora é preservar a cobertura vacinal, alcançar adolescentes que ainda não receberam o imunizante e ampliar o acesso ao rastreamento adequado.

A redução das lesões precursoras constitui uma etapa importante na prevenção do câncer cervical. Sua continuidade poderá contribuir para diminuir a ocorrência da doença nas próximas décadas, desde que os avanços na vacinação sejam acompanhados de diagnóstico oportuno e acesso efetivo ao tratamento.

Referências

Estudo original: Bierrenbach AL e colaboradores. Early effects of HPV vaccination on high-grade cervical intraepithelial neoplasia in Brazil: Evidence from outpatient data. Human Vaccines & Immunotherapeutics, 2026.
Acessar publicação científica.

Organização Mundial da Saúde: Estratégia global para a eliminação do câncer do colo do útero como problema de saúde pública.
Consultar iniciativa da OMS.

Ministério da Saúde: Programa Nacional de Imunizações e diretrizes nacionais para o rastreamento do câncer do colo do útero.
Portal institucional.

Instituto Nacional de Câncer: Estimativas de incidência de câncer no Brasil.
Portal do INCA.