A tecnologia ainda não está disponível no Brasil, mas o primeiro centro de protonterapia do país está em desenvolvimento no Rio de Janeiro. Segundo anúncio da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), o empreendimento será implantado pela Fundação Educacional Severino Sombra, em parceria com o Instituto Nacional de Câncer (INCA). A previsão é de que os primeiros atendimentos ocorram em 2030.
Como a protonterapia reduz a dose em tecidos saudáveis
A diferença da protonterapia em relação à radioterapia convencional está principalmente na forma como a radiação deposita energia no organismo. De acordo com a SBRT, enquanto os tratamentos convencionais utilizam fótons, como os raios X, a protonterapia emprega partículas chamadas prótons.
À medida que atravessam o organismo, os prótons liberam uma parcela limitada de sua energia. A maior deposição ocorre próximo ao fim de seu percurso, no chamado pico de Bragg, seguida por uma queda acentuada da dose. Essa propriedade permite ajustar a profundidade do tratamento, concentrar a radiação no tumor e reduzir a quantidade que atinge tecidos saudáveis localizados além da área tratada.
Benefícios da protonterapia no câncer pediátrico
De acordo com Michael Jenwei Chen, radio-oncologista, membro da SBRT e coordenador médico no GRAACC, essa possibilidade é particularmente relevante para pacientes que ainda estão em fase de desenvolvimento.
“Quando falamos de crianças fazendo radioterapia, a protonterapia tem como objetivo não alterar, por exemplo, o crescimento ósseo. Em tumores cerebrais, você tem uma vantagem grande, porque são menos tecidos saudáveis expostos, o que pode evitar possíveis efeitos colaterais no desenvolvimento cerebral e cognitivo. Pacientes que fazem prótons evoluem com menos efeitos colaterais tardios.”
Michael Jenwei Chen, radio-oncologista
O benefício da protonterapia está principalmente na possibilidade de reduzir a dose de radiação recebida pelos tecidos saudáveis e, consequentemente, determinados efeitos adversos do tratamento. Isso não significa, porém, que a tecnologia necessariamente aumente as chances de cura em comparação com outras modalidades de radioterapia.
“Os estudos não apontam nenhuma evidência de que essa estratégia de tratamento aumente as chances de cura. Esse benefício ainda não foi demonstrado de forma clara com o uso de prótons. O principal objetivo é minimizar alguns possíveis efeitos colaterais, principalmente em jovens.”
Michael Jenwei Chen, radio-oncologista
Quais pacientes podem receber o tratamento
A protonterapia não é indicada para todos os pacientes que precisam de radioterapia. A decisão é individualizada e considera o tipo e a localização do tumor, a idade do paciente, a proximidade da doença com órgãos e estruturas sensíveis e o benefício esperado com a redução da dose nessas regiões.
A técnica já integra sistemas públicos de saúde de países como Inglaterra e Países Baixos, que adotam critérios para definir quais pacientes podem receber o tratamento. Na Inglaterra, o NHS possui uma política específica para o uso da protonterapia em crianças, adolescentes e adultos jovens com determinados tumores malignos e não malignos. Nos Países Baixos, tumores pediátricos estão entre as chamadas “indicações padrão”, embora a decisão final continue sendo individualizada.
“Nos países que dispõem da técnica, a indicação depende de identificar os pacientes que realmente podem se beneficiar do tratamento.”
Michael Jenwei Chen, radio-oncologista
Radioterapia no câncer infantojuvenil
O Brasil deve registrar 7.560 novos casos de câncer infantojuvenil por ano no triênio 2026 a 2028, segundo estimativas do Instituto Nacional de Câncer. Desse total, são estimados 3.960 casos anuais entre meninos e 3.600 entre meninas.
7.560 novos casos por ano
Estimativa brasileira para crianças e adolescentes de 0 a 19 anos no triênio 2026 a 2028.
Um estudo internacional publicado na revista científica Radiotherapy and Oncology, que analisou 13.305 pacientes pediátricos com câncer atendidos em uma instituição entre 2010 e 2017, mostrou que 33% receberam pelo menos um ciclo de radioterapia. A utilização variou conforme o tipo e o estágio da doença.
Aplicado apenas como referência ao número de novos casos estimados anualmente no Brasil, esse percentual corresponderia a cerca de 2.500 crianças e adolescentes.
Segundo Chen, na radioterapia indicada para crianças e adolescentes existe uma preocupação especial com a preservação das áreas de crescimento ósseo, a redução de possíveis sequelas e a exposição de órgãos e tecidos saudáveis, já que alguns efeitos podem aparecer anos ou mesmo décadas depois.
“Hoje as indicações de radioterapia são muito individualizadas e criteriosas, e a combinação com outras modalidades permite reduzir possíveis efeitos colaterais a longo prazo.”
Michael Jenwei Chen, radio-oncologista
Técnicas disponíveis atualmente no Brasil
Mesmo sem a protonterapia disponível no país, técnicas modernas utilizadas atualmente, como a radioterapia de intensidade modulada (IMRT) e a radioterapia em arco volumétrico (VMAT), permitem distribuir a dose com maior precisão e reduzir a exposição de estruturas saudáveis.
A protonterapia acrescenta uma possibilidade diferente pelas características físicas dos prótons e pela maneira como essas partículas depositam energia no organismo.
Tipos mais frequentes de câncer infantil
Entre crianças de 0 a 14 anos, as leucemias são o grupo de cânceres mais frequente. Entre os tumores sólidos, destacam-se os tumores do sistema nervoso central, incluindo meduloblastomas, ependimomas e alguns tumores do tronco cerebral.
Também estão entre os principais tipos diagnosticados na infância os linfomas, o tumor de Wilms, que afeta os rins, os sarcomas de partes moles, o neuroblastoma e o retinoblastoma. Esse tumor ocular raro costuma surgir nos primeiros anos de vida e ganhou maior visibilidade no Brasil após o diagnóstico de Lua, filha dos jornalistas Tiago Leifert e Daiana Garbin.
Em casos selecionados de retinoblastoma, uma das possibilidades de tratamento é a braquiterapia, modalidade na qual uma fonte radioativa é posicionada temporariamente junto ao olho, próxima ao tumor. A técnica permite concentrar a radiação na área tratada e reduzir a exposição dos tecidos ao redor.
Sinais de alerta para o câncer infantojuvenil
De acordo com Michael Chen, um dos grandes desafios no enfrentamento do câncer infantojuvenil é chegar mais rapidamente ao diagnóstico.
“É muito comum que as famílias procurem as unidades de atendimento e passem por inúmeras consultas até chegar ao diagnóstico. Por isso, é importante estar atento aos sinais de alerta, como nódulos persistentes no pescoço, axila ou virilha que não estejam relacionados a infecções e apresentem crescimento progressivo. Sintomas como febre sem causa aparente, perda de peso e sudorese noturna também merecem atenção, assim como dor óssea sem causa aparente e reflexo branco no olho.”
Michael Jenwei Chen, radio-oncologista