Popularizados nos últimos anos por causa do emagrecimento que provocam, os medicamentos da classe dos agonistas do receptor de GLP1, entre eles semaglutida e liraglutida, vão muito além da balança. Uma revisão de literatura reúne o conjunto mais atual de evidências sobre a categoria e reforça que seus efeitos alcançam o coração, os rins e o metabolismo como um todo, não apenas o controle do açúcar no sangue.
De acordo com uma investigação partilhada pela revista Qualis A Open Minds (propriedade do CPAH, o Centro de Pesquisa e Análises Heráclito, sob gestão técnica da Editora Atena), o trabalho foi conduzido por Paula Lorenz Abella, Izadora Hellfeldt Fürst, Laura Ribas Dalla Roza, Giovana Pinhatti Matos, João Pedro Vargas Zolet, Tarso Caliel Volpatto Marcuzzo, Eliara Franceschini, Eduardo Cordova, Vitória Dal Forno Smola, Luisa Piccolo Fumaco Snel e Lucas Lamaison, estudantes de Medicina, com supervisão do professor Thiago Silveira de Moura, da Universidade Luterana do Brasil, campus Canoas, no Rio Grande do Sul.
Como o organismo reage a esses medicamentos?
O GLP1 é um hormônio produzido naturalmente pelo intestino após as refeições. Ele estimula a liberação de insulina apenas quando os níveis de açúcar no sangue estão elevados, o que já explica um dos diferenciais mais citados pelos pesquisadores: o baixo risco de hipoglicemia associado a esses remédios, se comparados a outras classes usadas no tratamento do diabetes tipo 2. O problema é que o hormônio produzido pelo próprio corpo dura pouco tempo em circulação. Os medicamentos analisados no estudo imitam esse hormônio, mas de forma prolongada, o que amplia seus efeitos.
Benefícios que vão além do açúcar no sangue
Segundo os autores, os estudos analisados demonstram redução consistente da hemoglobina glicada, indicador usado para medir o controle do diabetes ao longo do tempo, além de perda de peso relevante. Mas o destaque da revisão está nos chamados efeitos pleiotrópicos, ou seja, benefícios que ultrapassam o campo glicêmico:
* Redução de eventos cardiovasculares graves, como infarto e acidente vascular cerebral, próxima de 20%, segundo estudos publicados entre 2024 e 2026
* Efeito protetor sobre os rins, com desaceleração da perda de função renal em pacientes que já apresentavam doença renal crônica
* Redução de marcadores de inflamação sistêmica, fator associado ao agravamento de doenças cardiovasculares e metabólicas
* Impacto favorável sobre o perfil de colesterol, com efeito comparado ao de estatinas em alguns dos estudos revisados
* Diminuição da gordura visceral, o que contribui para melhorar a resposta do corpo à própria insulina
Um dos estudos citados na revisão, conhecido como FLOW, acompanhou pacientes com diabetes tipo 2 e doença renal crônica e identificou redução de 24% no risco do desfecho renal considerado principal pela pesquisa, além de queda mais lenta da taxa de filtração glomerular, indicador usado para avaliar a saúde dos rins.
Nem tudo são vantagens: os efeitos colaterais mais comuns
A revisão também dedica espaço às limitações da classe. Os efeitos colaterais gastrointestinais, como náusea, vômito, diarreia e desconforto abdominal, aparecem entre 20% e 45% dos pacientes, sobretudo no início do tratamento ou durante o ajuste da dose, e representam uma das principais causas de abandono da medicação. Há ainda relatos raros de pancreatite associada ao uso desses remédios, o que levou agências reguladoras a incluir alertas específicos nas bulas, embora uma relação de causa direta ainda não tenha sido comprovada em estudos controlados.
O obstáculo do preço
Apesar dos resultados favoráveis, os autores destacam que o custo elevado das formulações injetáveis de longa duração, e mais recentemente também das versões orais, limita o acesso amplo a esses medicamentos, sobretudo em países de renda baixa e média. Para a equipe responsável pela revisão, a expansão do uso dessa classe terapêutica depende não apenas de evidências científicas robustas, mas também de políticas públicas capazes de equilibrar eficácia, segurança, custo e equidade no acesso à saúde.
O tema ganha relevância num momento em que o debate público sobre medicamentos para emagrecimento se intensifica, impulsionado por relatos de celebridades e pela crescente procura por esse tipo de tratamento nas redes sociais, o que reforça a importância de compreender esses remédios para além do efeito estético.