Proteína tau participa da formação de memórias duradouras | Newslab

Estudo identifica papel da proteína tau na formação de memórias duradouras

Estudo mostra como a tau fosforilada regula células de engrama e contribui para a formação de memórias duradouras em camundongos

Pesquisa publicada na Nature Communications mostra que uma modificação específica da proteína tau participa da seleção dos neurônios responsáveis pela formação de memórias de longa duração. Realizado em camundongos, o trabalho amplia a compreensão sobre as funções fisiológicas da tau e oferece uma possível conexão molecular entre alterações dessa proteína e diferentes padrões de perda de memória observados nas demências.

A proteína tau costuma ser associada à doença de Alzheimer por sua presença nos emaranhados neurofibrilares que se acumulam no cérebro durante a progressão da enfermidade. O novo estudo, conduzido por pesquisadores da Flinders University, da Macquarie University e da University of New South Wales, na Austrália, indica que a mesma proteína exerce uma função relevante no funcionamento normal da memória.

Os resultados mostram que a fosforilação da tau na treonina 205, denominada tau T205, é induzida durante a codificação de uma experiência e participa da organização das células que formarão o registro neuronal dessa memória. O artigo foi publicado em 17 de maio de 2026, com o DOI 10.1038/s41467-026-73207-9.

Tau além da neurodegeneração

A tau é uma proteína associada aos microtúbulos, estruturas que integram o citoesqueleto dos neurônios e participam do transporte intracelular. Na doença de Alzheimer, alterações químicas anormais podem fazer com que a tau se desprenda dos microtúbulos e se agregue, contribuindo para a formação dos emaranhados neurofibrilares característicos da doença.

A fosforilação, entretanto, não representa necessariamente um evento patológico. Trata-se de uma modificação pós-traducional na qual grupos fosfato são adicionados a locais específicos da proteína, alterando sua atividade, sua localização ou sua interação com outras moléculas.

O estudo australiano chama atenção justamente para essa diferença. Em condições controladas, a fosforilação da tau em T205 parece atuar como parte do funcionamento fisiológico da memória. O problema surge quando a quantidade, a localização, o padrão temporal ou os sítios de fosforilação se tornam anormais, favorecendo desorganização neuronal, agregação proteica e neurodegeneração.

Como as células de engrama armazenam experiências

Os pesquisadores concentraram a investigação nas chamadas células de engrama. Esses neurônios formam conjuntos específicos durante uma experiência e constituem o substrato celular associado ao armazenamento e à recuperação de uma memória.

Quando um evento é codificado, apenas uma parcela dos neurônios disponíveis é recrutada para integrar esse conjunto. A precisão dessa seleção influencia a estabilidade do registro e a capacidade de recuperar a informação posteriormente.

Nos experimentos com camundongos, a fosforilação da tau em T205 regulou o recrutamento das células de engrama e limitou a ativação de neurônios que não deveriam participar daquele registro. Esse controle reduziu a atividade neuronal inespecífica, permitindo a formação de conjuntos celulares mais delimitados e eficientes.

Sem esse mecanismo, mais células eram ativadas de maneira inadequada durante a codificação. O resultado foi a formação de traços de memória menos precisos e mais difíceis de recuperar por meio dos estímulos naturais associados à experiência.

Aprender não significa necessariamente consolidar

Uma das principais contribuições do trabalho está na distinção entre aprendizagem inicial e memória remota. No contexto experimental, memória remota corresponde à capacidade de recuperar uma experiência depois de dias ou semanas, período em que o registro já passou por processos de consolidação e reorganização.

A ausência da tau não impediu que os animais aprendessem uma nova informação ou demonstrassem memória pouco tempo depois. A dificuldade apareceu quando o registro precisou permanecer acessível durante períodos mais longos.

Isso sugere que a tau T205 exerce uma função mais relacionada à durabilidade e à organização da memória do que à aquisição imediata da informação. Em outras palavras, a experiência podia ser inicialmente registrada, porém sua associação com os estímulos necessários para uma recuperação futura se tornava menos eficiente.

O resultado ajuda a formular uma possível explicação biológica para situações em que uma pessoa consegue compreender ou aprender uma informação no momento, mas apresenta dificuldade para recuperá-la posteriormente. Essa interpretação, contudo, ainda precisa ser investigada em seres humanos.

Memórias permaneciam presentes, mesmo sem recuperação natural

Os pesquisadores observaram que os traços de memória continuavam presentes mesmo nos animais sem tau funcional. Quando as células de engrama eram estimuladas diretamente por técnicas optogenéticas, a memória podia ser recuperada.

A optogenética permite controlar populações neuronais específicas por meio de proteínas sensíveis à luz. No experimento, essa ativação direta contornou a dificuldade de recuperação provocada pela ausência da tau.

O achado indica que a tau não seria indispensável para a existência física do registro. Sua função estaria ligada à conexão entre os estímulos sensoriais naturais e o conjunto neuronal responsável por armazenar aquela experiência. Sem essa organização, a memória permanece registrada, mas deixa de ser acessada adequadamente pelos sinais do ambiente.

Essa diferença entre perda do conteúdo e falha de acesso representa uma questão relevante para a pesquisa em demências. Parte dos déficits cognitivos pode envolver alterações na forma como as redes neuronais organizam e recuperam os registros, mesmo quando alguns componentes da memória ainda permanecem preservados.

Tau patológica interfere em etapas distintas da memória

O grupo avaliou ainda o efeito de formas patogênicas da tau sobre as células ativadas durante a formação e a recuperação das memórias.

Quando a tau associada à doença estava presente nas células de engrama durante a codificação, os animais apresentavam comprometimento na formação de novas memórias, um padrão compatível com amnésia anterógrada.

Quando essas formas patológicas eram introduzidas depois que a memória já havia sido formada, o prejuízo aparecia na recuperação de registros existentes, característica relacionada à amnésia retrógrada. Nos dois cenários, os pesquisadores identificaram ativação neuronal local desorganizada.

Os resultados estabelecem uma ligação experimental entre a função fisiológica da tau na organização dos engramas e os efeitos da tau patológica sobre a memória. A proteína participa de um mecanismo normal de seleção neuronal, enquanto suas formas alteradas podem desestruturar esse processo em momentos diferentes.

O que o estudo representa para os biomarcadores de Alzheimer

A descoberta tem relevância conceitual para os laboratórios que investigam biomarcadores de neurodegeneração. A expressão tau fosforilada não define um único analito ou processo biológico. Cada forma de p-tau corresponde a um sítio específico de fosforilação e pode refletir eventos moleculares diferentes.

Os biomarcadores sanguíneos mais estudados e incorporados às recomendações recentes para a investigação da doença de Alzheimer incluem principalmente a p-tau217 e a p-tau181. Esses marcadores são avaliados como indicadores da patologia cerebral associada ao Alzheimer, dentro de protocolos que consideram o quadro clínico, a avaliação cognitiva e outros exames.

A tau T205 investigada no novo trabalho tem outra finalidade neste momento. O estudo analisou seu papel molecular na formação da memória em modelos animais. Ele não avaliou a T205 como teste diagnóstico em sangue, líquido cefalorraquidiano ou outro material clínico.

Portanto, o achado não representa a disponibilidade imediata de um novo exame laboratorial. Sua contribuição está em demonstrar que modificações específicas da tau podem participar de mecanismos fisiológicos essenciais, enquanto outras alterações, ou as mesmas alterações em contextos inadequados, podem assumir caráter patológico.

Essa distinção será importante para o desenvolvimento de ensaios mais seletivos, capazes de diferenciar formas de tau relacionadas ao funcionamento neuronal daquelas associadas à neurodegeneração.

Resultados ainda precisam ser confirmados em humanos

Os autores destacam que o estudo foi realizado em camundongos. Embora esses modelos permitam investigar circuitos neuronais, mecanismos moleculares e relações causais com elevado nível de controle, os resultados não podem ser transferidos diretamente para a memória humana ou para o diagnóstico e tratamento da doença de Alzheimer.

A pesquisa também foi disponibilizada pela Nature Communications em uma versão antecipada, ainda sujeita a ajustes editoriais. O artigo informa que alguns autores possuem patentes relacionadas à p38γ e à tau Thr-205 em condições neurológicas, e que um dos pesquisadores é acionista de uma empresa que atua nessa área. Os demais autores declararam ausência de conflitos de interesse.

As próximas etapas deverão verificar se a tau T205 desempenha função semelhante em células humanas, como sua atividade se modifica durante o envelhecimento e de que maneira esse mecanismo se relaciona às diferentes fases das tauopatias.

Por enquanto, o trabalho oferece uma leitura mais precisa da proteína tau. Longe de representar apenas um produto patológico acumulado no cérebro, ela participa da organização dos circuitos que permitem transformar experiências recentes em memórias duradouras. Compreender onde termina essa função fisiológica e onde começa a desregulação patológica poderá orientar novas estratégias de pesquisa em biomarcadores, diagnóstico e terapias para as demências.