Pesquisadores da University of Basel desenvolveram uma abordagem inovadora que pode transformar a forma como os antibióticos são avaliados tanto em pesquisa quanto na prática clínica, ao medir não apenas se eles travam o crescimento bacteriano, mas se realmente eliminam as bactérias alvo. O estudo, publicado recentemente na Nature Microbiology, representa um avanço significativo na luta contra infecções persistentes e a resistência antimicrobiana, oferecendo uma janela inédita para observar a resposta bacteriana em nível individual.
Além do inibidor de crescimento
Há décadas, os laboratórios utilizam testes de suscetibilidade que verificam se uma droga impede o crescimento das bactérias em meios de cultura. Embora indispensáveis, esses métodos tradicionais podem ser limitados, pois não diferenciam entre bactérias que são de fato mortas pelo antibiótico e aquelas que apenas param de se multiplicar temporariamente, podendo ressurgir depois do fim do tratamento. Essa distinção é crucial em infecções crônicas ou de difícil manejo, como a tuberculose.
Filmando bactérias em ação
A nova técnica, batizada de antimicrobial single-cell testing, utiliza imagens de microscopia de alta resolução para acompanhar milhões de bactérias individualmente ao longo de vários dias e sob milhares de condições de tratamento distintas. Em vez de inferir a eficácia do antibiótico pela ausência de crescimento, o método monitora cada célula para determinar se ela morre, resiste ou eventualmente se recupera após a exposição ao medicamento.
Essa abordagem permite quantificar de maneira precisa o que os cientistas chamam de killing efficiency, ou eficiência de eliminação bacteriana, um parâmetro que os testes convencionais não capturam.
Evidências em micobactérias complexas
Para validar o potencial desse teste, a equipe aplicou o método a 65 combinações de terapias antimicrobianas contra Mycobacterium tuberculosis, o agente da tuberculose. Além disso, o método foi testado em isolados de 400 pacientes com infecções pulmonares complexas causadas por Mycobacterium abscessus, um microrganismo frequentemente associado a tratamentos prolongados e resultados clínicos difíceis.
Os resultados mostraram diferenças substanciais na capacidade de eliminação entre diferentes combinações terapêuticas e entre cepas bacterianas de diferentes pacientes, refletindo a variabilidade clínica real. Análises genéticas indicaram que características específicas dos microrganismos influenciam a tolerância aos antibióticos, explicando por que algumas infecções persistem apesar de terapias consideradas sensíveis nos testes habituais.
Implicações para o diagnóstico e a terapia
A descoberta tem implicações relevantes para a prática laboratorial e para a gestão clínica de infecções complexas. Ao medir diretamente a eficácia bactericida de um tratamento, esse método pode apoiar a seleção de combinações de antibióticos com maior probabilidade de erradicação completa da infecção, reduzindo a chance de recaída e de desenvolvimento de resistência emergente.
Embora atualmente usado em contexto de pesquisa, os autores sugerem que essa abordagem poderia, no futuro, orientar decisões terapêuticas personalizadas e melhorar a avaliação de novos antibióticos em desenvolvimento. O desafio seguinte é transformar a metodologia em um formato mais rápido e acessível, capaz de ser integrado à rotina de diagnóstico laboratorial.
Contribuição à vigilância antimicrobiana
Além de suas aplicações diretas, o novo teste oferece um instrumento valioso para entender melhor as estratégias de sobrevivência das bactérias frente a drogas comuns, contribuindo para a vigilância e mitigação da resistência antimicrobiana, uma das maiores ameaças à saúde global.


