Terapia tripla elimina tumores de pâncreas em camundongos e dribla resistência, estudo do CNIO aponta

Combinação inédita mira três nós da via do KRAS e provoca regressão robusta e durável do adenocarcinoma ductal pancreático em diferentes modelos pré-clínicos, com boa tolerabilidade, segundo artigo na PNAS.

Um grupo do Centro Nacional de Investigaciones Oncológicas (CNIO), na Espanha, liderado pelo oncologista Mariano Barbacid, descreveu um resultado pré-clínico que chama atenção em um dos cânceres mais letais: a eliminação de tumores de pâncreas em camundongos com uma terapia tripla direcionada, sem surgimento de resistência durante o acompanhamento do experimento.

O que foi testado

O estudo focou no adenocarcinoma ductal pancreático (PDAC), a forma mais comum do câncer de pâncreas. A proposta foi atacar a via do KRAS em três pontos ao mesmo tempo, reduzindo a chance de o tumor “escapar” por rotas alternativas, um problema frequente quando se bloqueia apenas um alvo.

Para isso, os pesquisadores combinaram:

  • Daraxonrasib, um inibidor experimental ligado ao eixo do KRAS,

  • Afatinib, fármaco já aprovado em outros contextos oncológicos por bloquear EGFR/HER2,

  • SD36, um degradador de proteínas do tipo PROTAC direcionado a STAT3.

Principais achados, e por que importam

Segundo o CNIO, a terapia tripla levou a uma regressão significativa e durável dos tumores em três modelos murinos de PDAC, com boa tolerabilidade e, principalmente, prevenção do aparecimento de resistência ao tratamento, uma barreira clássica em terapias alvo-moleculares.

Na prática, o estudo reforça uma ideia que vem ganhando força em oncologia de precisão: em tumores altamente adaptativos, a combinação racional de alvos pode ser mais eficaz do que intensificar um único bloqueio.

O que ainda não dá para concluir

Apesar do impacto do resultado, ele é pré-clínico, obtido em camundongos. O próprio Barbacid destaca que ainda não há condições de levar a estratégia diretamente para ensaios clínicos, e que o caminho de otimização para uso em cenário clínico “não será fácil”.

Em outras palavras, não se trata de “cura em humanos”, e sim de um passo relevante, com base mecanística clara, que pode orientar o desenho de estudos translacionais e futuros testes em pessoas.

Próximos passos prováveis

A ponte entre um achado em animais e um estudo em humanos costuma exigir:

  • ajustes de dose, segurança e formulação,

  • validação adicional em modelos complementares,

  • planejamento regulatório e financiamento para ensaios de fase inicial.

O estudo foi publicado na PNAS, assinado por Vasiliki Liaki e Sara Barrambana como primeiras autoras, com Carmen Guerra e Mariano Barbacid entre os autores.