Dia Mundial de Combate ao Câncer, o que muda em 2026, do risco ao cuidado de precisão

Em 4 de fevereiro, o Dia Mundial de Combate ao Câncer funciona como um alerta necessário, câncer não é um evento raro, nem um destino inevitável. É, ao mesmo tempo, um conjunto de doenças biológicas complexas e um espelho de desigualdades, acesso, hábitos, ambiente e qualidade dos sistemas de saúde.

Em 2026, a discussão global se apoia em duas certezas. A primeira é numérica, o câncer segue entre as principais causas de morte no mundo e a carga deve crescer com o envelhecimento populacional. A segunda é estratégica, uma parcela relevante dos casos está ligada a fatores modificáveis, enquanto outra parte pode ser enfrentada com diagnóstico mais precoce e terapias mais personalizadas, quando o cuidado chega a tempo.

O peso do câncer no mundo e no Brasil

No cenário global, estimativas consolidadas do GLOBOCAN 2022 (base de dados mais completa e ainda de referência global ainda indicam quase 20 milhões de novos casos e perto de 10 milhões de mortes por câncer em 2022. As projeções demográficas apontam para mais de 35 milhões de novos casos anuais em 2050, um salto associado sobretudo a envelhecimento e crescimento populacional, somado à exposição a fatores de risco.

Em termos de incidência global, o câncer de pulmão aparece como um dos mais diagnosticados, seguido por mama, colorretal, próstata e estômago. Em mortalidade, pulmão também tem posição de liderança, junto ao colorretal, fígado, mama e estômago.

No Brasil, as estimativas mais recentes publicadas pelo INCA para o triênio 2026 a 2028 projetam, em média, 781 mil casos novos de câncer por ano. Excluindo câncer de pele não melanoma, são 518 mil casos anuais. Entre os mais frequentes, destacam-se mama feminina e próstata, cada um com cerca de 15% das novas ocorrências, seguidos por colorretal, traqueia, brônquio e pulmão, estômago e colo do útero.

Esse retrato brasileiro é importante por um motivo adicional, ele revela uma transição epidemiológica. Aumento relativo de tumores associados ao envelhecimento e ao estilo de vida convive com cânceres ligados à vulnerabilidade social e a barreiras de acesso a prevenção, vacinação e rastreamento.

O que mais preocupa, incidência não é sinônimo de letalidade

Para planejamento em saúde, duas perguntas são diferentes. O que mais ocorre, e o que mais mata. Tumores como mama e próstata podem ser muito incidentes, mas com potencial de bom controle quando diagnosticados cedo e tratados de forma adequada. Já pulmão, pâncreas e alguns tumores gastrointestinais tendem a concentrar mortalidade, em grande parte por diagnóstico tardio e biologia agressiva.

Globalmente, o câncer de pulmão continua como principal causa de morte por câncer, e permanece fortemente conectado ao tabagismo e a exposições ambientais, apesar de avanços terapêuticos.

Prevenção voltou ao centro, com dados mais duros

Uma análise internacional divulgada pela IARC, agência da OMS, estimou que 37% dos novos casos de câncer em 2022, cerca de 7,1 milhões, estiveram ligados a causas preveníveis, com tabaco como principal fator, seguido por infecções e outros riscos modificáveis, como álcool, excesso de peso, inatividade física, poluição do ar e radiação ultravioleta.

A mensagem mais atual e mais difícil é que prevenção não é uma lista moral de escolhas individuais. Ela depende de políticas públicas, regulação de tabaco, álcool e ultraprocessados, vacinação e rastreamento organizados, ambientes menos poluídos, cidades mais ativas, proteção ocupacional, e acesso real a atenção primária.

Diagnóstico em 2026, mais cedo, mais preciso, mais guiado por biologia

A grande mudança da oncologia moderna é que “câncer” deixou de ser definido apenas pelo órgão de origem. Hoje, parte das decisões é orientada por assinaturas moleculares, biomarcadores preditivos, e sinais mínimos de doença que antes eram invisíveis.

Algumas frentes concentram as tendências mais relevantes:

1) Patologia e imagem com suporte de IA
A digitalização de lâminas, a padronização de laudos e o uso de ferramentas computacionais têm acelerado triagem, reduzido variabilidade e ajudado a priorizar casos complexos. O impacto real depende de validação clínica, integração ao fluxo e governança de dados.

2) Biópsia líquida e ctDNA, do acompanhamento ao risco de recidiva
A detecção de DNA tumoral circulante vem se consolidando como ferramenta para identificar doença residual mínima e refinar risco após cirurgia, especialmente em tumores como o colorretal. Em ensaios e coortes, o ctDNA tem mostrado valor prognóstico robusto e potencial para evitar tratamento desnecessário em grupos selecionados, ou intensificar terapia quando o risco é alto.

3) Rastreamento e diagnóstico precoce com foco em risco
Em vários países, discute-se cada vez mais rastreamento baseado em risco, combinando idade, histórico familiar, exposições, genética e sinais laboratoriais. O desafio é o mesmo, reduzir mortes sem aumentar sobrediagnóstico e intervenções desnecessárias, e fazer isso de forma equitativa.

Tratamento em 2026, combinações inteligentes e terapias mais direcionadas

A oncologia continua avançando em camadas. Algumas consolidaram-se, outras estão em aceleração.

Imunoterapia com refinamento de seleção e combinação
Inibidores de checkpoint seguem como pilar em múltiplos tumores, mas a tendência é sofisticar a indicação com biomarcadores, combinar estratégias, e reduzir toxicidade com esquemas mais racionais, evitando tratar “no escuro”.

Antibody drug conjugates, os ADCs como nova plataforma
Os ADCs ampliaram a capacidade de entregar quimioterapia de forma mais dirigida, com ganhos clínicos em cenários específicos, e uma onda de desenvolvimento em curso. Revisões recentes destacam o crescimento do portfólio aprovado e a expansão de indicações, com discussões importantes sobre posicionamento, perfil de segurança e custo efetividade.

Radioligantes, a volta forte da medicina nuclear terapêutica
Terapias radioligantes ganharam espaço em tumores como próstata, com expansão de indicações regulatórias em 2025 nos EUA para uso mais precoce em pacientes selecionados com PSMA positivo. É uma tendência relevante por unir imagem, seleção de alvo e tratamento, na prática, uma oncologia “teranóstica”.

Terapias celulares e anticorpos biespecíficos, avanço sobretudo em hematologia
Em neoplasias hematológicas, anticorpos biespecíficos ampliaram opções de resgate e ponte terapêutica, enquanto terapias celulares seguem evoluindo em resposta, duração e logística. Revisões recentes discutem eficácia, toxicidades e desafios de sequenciamento terapêutico.

Vacinas personalizadas e neoantígenos, promessa com evidência emergente
O tema voltou com força por estudos em melanoma de alto risco, explorando terapias individualizadas baseadas em neoantígenos, em combinação com imunoterapia padrão, com sinal de benefício em desfechos como recorrência. Ainda é um campo em maturação, com perguntas abertas de custo, acesso, padronização e escalabilidade.

Prognóstico, a curva melhora, mas o relógio continua sendo o estágio

Quando o diagnóstico chega cedo, a chance de cura cresce, e o tratamento tende a ser menos tóxico, mais curto e mais custo-efetivo. Quando chega tarde, mesmo a melhor terapia do mundo vira contenção. É por isso que, em 2026, a discussão séria sobre câncer é menos sobre uma “droga revolucionária” e mais sobre sistemas, rastreamento organizado, tempo até biópsia, tempo até estadiamento, tempo até iniciar tratamento, e continuidade do cuidado.

No Brasil, as estimativas do INCA reforçam dois alertas, o aumento do câncer colorretal e a retomada do crescimento do câncer de pulmão, um sinal de que prevenção e detecção precoce precisam ganhar escala, e que os registros e dados têm de ser fortalecidos para orientar decisões.

O que esperar dos próximos anos

A oncologia caminha para um modelo híbrido. Mais prevenção estruturada, mais diagnóstico guiado por risco, mais precisão baseada em biomarcadores, e mais integração entre laboratório, imagem e decisão clínica. Isso exige infraestrutura, regulação, treinamento e financiamento, mas também exige comunicação pública madura, com menos alarmismo, mais ciência, e mais foco em acesso.

No Dia Mundial de Combate ao Câncer, a melhor mensagem é objetiva, câncer é, em parte, prevenível, em parte, tratável com alto nível de controle quando detectado cedo, e quase sempre injusto quando o sistema falha em chegar antes da doença avançar.

Referências

  • INCA, Revista Brasileira de Cancerologia, estimativas para 2026 a 2028, incidência no Brasil.

  • IARC, GLOBOCAN 2022, estatísticas globais e rankings por incidência e mortalidade.

  • OMS, Fact sheet sobre câncer, fatores de risco e carga global.

  • IARC, análise sobre fração prevenível do câncer e fatores modificáveis, divulgada em 2026.

  • Evidência recente em ctDNA e doença residual mínima, DYNAMIC e coortes prospectivas em colorretal.

  • Tendências terapêuticas, ADCs, radioligantes, biespecíficos, vacinas personalizadas.

 

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