Câncer de pulmão, mitos, diagnóstico e biomarcadores | Newslab

Câncer de pulmão, mitos que dificultam o diagnóstico e o papel dos exames na escolha do tratamento

Doença pode atingir pessoas que nunca fumaram e permanecer sem sintomas nas fases iniciais. Rastreamento em grupos de risco e análise de biomarcadores têm funções distintas no cuidado

Esperar uma tosse com secreção para investigar um problema pulmonar ou descartar a possibilidade de câncer porque a pessoa nunca fumou são interpretações que podem atrasar a avaliação médica. O câncer de pulmão nem sempre apresenta sinais nas fases iniciais, e o histórico de tabagismo, embora fundamental para estimar o risco, não é suficiente para excluir a doença.
[2] [3]

No Brasil, o Instituto Nacional de Câncer, INCA, estima 35.380 novos casos de cânceres de traqueia, brônquios e pulmão por ano entre 2026 e 2028, sendo 18.730 em homens e 16.650 em mulheres. A maior incidência masculina permanece, mas a doença exige atenção em ambos os grupos.
[1]

A dimensão do problema aparece também nas estatísticas internacionais. Segundo a Organização Mundial da Saúde, o câncer de pulmão foi a principal causa de morte por câncer no mundo em 2022, com aproximadamente 1,8 milhão de óbitos. O diagnóstico em estágios avançados continua entre os principais obstáculos ao tratamento.
[2]

Em material encaminhado à imprensa, a oncologista Samira Mascarenhas, presidente eleita do Grupo Brasileiro de Oncologia Torácica, GBOT, ressalta a importância de identificar a doença mais cedo.

“Quanto mais cedo conseguimos identificar o câncer, maiores são as possibilidades de tratamento e melhores os desfechos clínicos. Por isso, ampliar o acesso ao diagnóstico precoce é fundamental para reduzir a mortalidade pela doença.”

Samira Mascarenhas
Oncologista e presidente eleita do GBOT

Nunca ter fumado não elimina a possibilidade de câncer

O tabagismo é o principal fator de risco para o câncer de pulmão. Isso, porém, não significa que a doença seja exclusiva de fumantes ou ex-fumantes. Exposição à fumaça de outras pessoas, radônio, poluição atmosférica e amianto estão entre os fatores associados ao desenvolvimento de tumores pulmonares em quem nunca fumou. Alterações genéticas hereditárias também podem aumentar o risco.
[3]

Nos Estados Unidos, os Centros de Controle e Prevenção de Doenças, CDC, estimam que entre 10% e 20% dos casos ocorram em pessoas que nunca fumaram ou que consumiram menos de 100 cigarros ao longo da vida. Esse percentual se refere à população norte-americana e não deve ser apresentado como uma estimativa brasileira.
[3]

A ausência de tabagismo, portanto, precisa ser considerada dentro da avaliação clínica, sem funcionar como motivo para desconsiderar sintomas ou achados suspeitos.

A tosse com secreção não é uma condição para suspeitar da doença

O câncer de pulmão pode permanecer assintomático no início. Quando surgem manifestações, elas podem incluir tosse persistente, falta de ar, dor no peito, rouquidão, perda de peso sem explicação e sangue no escarro. Esses sinais também aparecem em outras doenças, o que torna a avaliação médica necessária para esclarecer sua origem.
[2]

A apresentação dos sintomas não depende exclusivamente do histórico de tabagismo. Pessoas que nunca fumaram podem ter manifestações semelhantes às observadas em fumantes, incluindo tosse, dor torácica e dificuldade para respirar. A persistência ou a mudança do padrão desses sintomas merece atenção, sem que se espere o aparecimento de secreção para procurar atendimento.
[3]

Rastreamento e investigação de sintomas são situações diferentes

O rastreamento busca identificar a doença em pessoas sem sintomas, selecionadas conforme seu risco. Já a investigação diagnóstica procura esclarecer uma suspeita clínica ou uma alteração encontrada em um exame. Confundir essas duas situações pode levar a orientações inadequadas sobre quem deve fazer tomografia e em quais circunstâncias.
[4]

Para o rastreamento do câncer de pulmão, a tomografia computadorizada de baixa dose tem evidências de redução da mortalidade em populações de alto risco. As recomendações brasileiras elaboradas pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Torácica, pela Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia e pelo Colégio Brasileiro de Radiologia contemplam, entre os critérios de seleção, pessoas de 50 a 80 anos, fumantes ou ex-fumantes que pararam há menos de 15 anos, com carga tabágica de pelo menos 20 maços-ano.
[5]

A carga tabágica corresponde ao número de maços consumidos por dia multiplicado pelos anos de uso. Fumar um maço diariamente durante 20 anos, por exemplo, equivale a 20 maços-ano. A indicação do exame exige avaliação individual, considerando as condições clínicas e a possibilidade de investigação e tratamento dos achados.
[6]

Detectar mais alterações não significa que todas sejam câncer. O rastreamento pode produzir resultados falsos positivos, levar a procedimentos desnecessários e identificar tumores que não causariam problemas ao longo da vida, situação chamada sobrediagnóstico. Por isso, o benefício depende da seleção adequada dos participantes e de uma estrutura capaz de acompanhar os resultados.
[7]

O diagnóstico não termina na imagem

Uma alteração na tomografia precisa ser interpretada em conjunto com o quadro clínico. Quando há suspeita de câncer, a confirmação geralmente envolve a análise de material obtido por biópsia ou outro procedimento de coleta. O exame anatomopatológico permite identificar as células tumorais e caracterizar o tipo de neoplasia. A imuno-histoquímica pode contribuir para essa classificação.
[8]

Outra etapa é o estadiamento, que avalia a extensão da doença, incluindo o comprometimento de linfonodos e a presença de metástases. Essas informações, associadas ao tipo de tumor e às condições do paciente, orientam o planejamento terapêutico.
[8]

Biomarcadores ajudam a definir o tratamento

Nos tumores de pulmão de células não pequenas, a avaliação de alterações moleculares pode fornecer informações decisivas para a escolha terapêutica. Alterações em genes como EGFR e ALK, por exemplo, fazem parte das características consideradas na definição das opções de tratamento.
[8]

Os testes de biomarcadores investigam genes, proteínas ou outras características do câncer que podem indicar sensibilidade ou resistência a determinados medicamentos. Dependendo do contexto clínico, seus resultados ajudam a selecionar terapias-alvo e imunoterapias. Encontrar uma alteração, contudo, não garante que exista um tratamento correspondente ou que ele seja adequado para aquele paciente.
[9]

A análise pode utilizar tecido tumoral e, em situações específicas, amostras de sangue por meio de biópsia líquida. Esses exames têm uma finalidade diferente do rastreamento por imagem, pois buscam caracterizar o câncer e apoiar decisões terapêuticas em pessoas já diagnosticadas.
[9]

Sobrevida exige contexto

O estágio ao diagnóstico influencia fortemente o prognóstico. Dados do programa norte-americano SEER mostram sobrevida relativa em cinco anos de 65,5% para câncer de pulmão e brônquios localizado, comparada a 29,5% quando todos os estágios são considerados, entre pessoas diagnosticadas de 2016 a 2022.
[10]

Esses números descrevem uma população dos Estados Unidos. Não representam taxas brasileiras, probabilidades individuais de cura ou previsões exatas para uma pessoa. A evolução depende de fatores como extensão da doença, características do tumor, condições clínicas e resposta ao tratamento.
[10]

Cigarros eletrônicos não são isentos de risco

Os dispositivos eletrônicos podem expor usuários à nicotina e a substâncias tóxicas, incluindo algumas reconhecidamente carcinogênicas. A OMS alerta que esses produtos não são seguros, embora seus efeitos de longo prazo ainda não estejam completamente esclarecidos.
[11]

A precisão dessa mensagem é importante. Reconhecer a presença de substâncias nocivas não permite atribuir aos cigarros eletrônicos uma estimativa de risco de câncer de pulmão equivalente à estabelecida para o cigarro convencional. Ao mesmo tempo, a incerteza sobre consequências futuras não constitui evidência de segurança.
[11]

O cuidado com o câncer de pulmão depende de medidas complementares, reduzir a exposição a fatores de risco, investigar sintomas persistentes, selecionar adequadamente quem pode se beneficiar do rastreamento e garantir que o diagnóstico forneça as informações necessárias para orientar o tratamento. Para o paciente, reconhecer essas diferenças ajuda a procurar atendimento no momento adequado e a compreender o papel de cada exame.
[2] [5] [9]

Referências e fontes

  1. Instituto Nacional de Câncer. Estimativa 2026 a 2028. Síntese de resultados e comentários.
    Consultar fonte.
  2. Organização Mundial da Saúde. Lung cancer.
    Consultar fonte.
  3. Centers for Disease Control and Prevention. Lung Cancer Among People Who Never Smoked.
    Consultar fonte.
  4. Ministério da Saúde. Câncer. Informações sobre detecção precoce e rastreamento.
    Consultar fonte.
  5. Recomendações da Sociedade Brasileira de Cirurgia Torácica, Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia e Colégio Brasileiro de Radiologia e Diagnóstico por Imagem para o rastreamento do câncer de pulmão no Brasil. Jornal Brasileiro de Pneumologia. 2024. 50(1), e20230233. DOI 10.36416/1806-3756/e20230233.
    Consultar publicação.
    Consultar critérios divulgados pela SBPT.
  6. U.S. Preventive Services Task Force. Lung Cancer Screening. Recomendação de 2021.
    Consultar recomendação.
  7. National Cancer Institute. Lung Cancer Screening, PDQ. Versão para profissionais de saúde.
    Consultar fonte.
  8. National Cancer Institute. Non-Small Cell Lung Cancer Treatment, PDQ. Versão para pacientes.
    Consultar fonte.
  9. National Cancer Institute. Biomarker Testing for Cancer Treatment.
    Consultar fonte.
  10. National Cancer Institute, SEER. Cancer Stat Facts. Lung and Bronchus Cancer. Dados de sobrevida referentes a diagnósticos de 2016 a 2022.
    Consultar estatísticas.
  11. Organização Mundial da Saúde. Tobacco, E-cigarettes.
    Consultar fonte.

Declaração de Samira Mascarenhas extraída do release encaminhado à redação. Fontes digitais consultadas em 14 de outubro de 2026.