Há poucas situações na medicina em que a ciência oferece uma promessa tão clara quanto no câncer do colo do útero em relação à extinção dessa doença: trata-se de uma doença amplamente prevenível, rastreável e tratável em estágios iniciais. Ainda assim, ela persiste — especialmente em países de renda média como o Brasil — como um retrato silencioso das desigualdades em saúde.
Segundo estimativas recentes do Instituto Nacional de Câncer (INCA) para o triênio 2026–2028, o Brasil deverá registrar cerca de 19.300 novos casos anuais de câncer do colo do útero. “Mais de 7 mil mulheres morrerão a cada ano por uma doença que, em grande parte, poderia ser evitada. Entre mulheres jovens, muitas vezes em plena fase produtiva e reprodutiva, o impacto é ainda mais devastador”, alerta o MD e PhD em Oncologia, o cirurgião Dr. Wesley Pereira Andrade.
Em aproximadamente 99% dos casos, o câncer do colo do útero está associado à infecção persistente pelo Papilomavírus Humano (HPV), especialmente os subtipos 16 e 18. Trata-se de um vírus de transmissão comum, frequentemente adquirido logo após o início da vida sexual. Na maioria das vezes, o organismo elimina a infecção espontaneamente. Em uma parcela menor — mas clinicamente crucial —, o vírus persiste e inicia um processo lento de transformação celular que pode levar ao câncer ao longo de anos.
“Esse intervalo prolongado entre a infecção e o desenvolvimento do tumor é, paradoxalmente, a maior oportunidade perdida da saúde pública.”, adverte o médico
A primeira linha de defesa é a vacinação. Disponível gratuitamente no sistema público de saúde brasileiro, a vacina contra o HPV representa uma das intervenções mais eficazes já desenvolvidas em oncologia preventiva. Países que alcançaram altas taxas de cobertura vacinal como Austrália e Reino Unido já observam quedas acentuadas na incidência de lesões pré-cancerosas e projetam a eliminação da doença nas próximas décadas.
No Brasil, no entanto, a cobertura vacinal ainda está aquém do ideal. Barreiras culturais, preconceito, desinformação e falhas logísticas contribuem para um cenário em que muitos adolescentes — o público-alvo da vacinação — permanecem desprotegidos.
A segunda linha de defesa é o rastreamento. Por décadas, o exame citopatológico, conhecido como Papanicolau, foi a principal ferramenta para detectar lesões precursoras. Ele continua sendo eficaz, especialmente quando realizado de forma periódica. Contudo, o avanço tecnológico trouxe métodos mais sensíveis, como o teste de DNA para HPV, que identifica diretamente a presença do vírus de alto risco antes mesmo de alterações celulares serem detectáveis.
Esse novo paradigma — já adotado em diversos países — desloca o foco do diagnóstico tardio para a identificação precoce do risco. Combinado a biomarcadores como p16 e Ki-67 e ao uso crescente de inteligência artificial na análise citológica, o rastreamento caminha para uma era de maior precisão e menor margem de erro.
Mas tecnologia, por si só, não resolve o problema
De acordo com o especialista, o desafio central permanece organizacional: transformar conhecimento em acesso. O Brasil ainda carece de um programa de rastreamento verdadeiramente estruturado e equitativo. Em muitas regiões, mulheres só chegam ao sistema de saúde quando já apresentam sintomas — sangramento, dor, doença avançada. Nesse estágio, as chances de cura diminuem, e o tratamento torna-se mais agressivo, mais custoso e mais impactante para a qualidade de vida.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) propôs uma estratégia ambiciosa para mudar esse cenário: vacinar 90% das meninas, rastrear 70% das mulheres e tratar 90% das lesões identificadas. Não se trata de uma meta utópica, mas de um plano tecnicamente viável — desde que haja compromisso político, investimento contínuo e mobilização social. Com isso, estima-se que o câncer de colo de útero poderá ser eliminado.
“O câncer do colo do útero expõe uma verdade desconfortável: não basta que a medicina saiba como prevenir uma doença; é preciso que a sociedade consiga aplicar esse conhecimento de forma consistente. Entre todos os cânceres, este é um dos poucos cuja eliminação está ao nosso alcance. A questão que permanece não é científica, mas coletiva”, conclui o oncologista.
Wesley Pereira Andrade
MD, PhD; Mestre e Doutor em Oncologia; Mastologista e Cirurgião Oncologista; Médico Titular da Sociedade Brasileira de Mastologia; Médico Titular da Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica; Coordenador do Comitê de Oncologia Mamária da Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica; Membro da Sociedade Americana de Cirurgia Oncológica | SSO – Society of Surgical Oncology e Membro da Sociedade Europeia de Cirurgia Oncológica | ESSO – European Society of Surgical Oncology



