Resumo
Sabemos que as Vacinas contra o COVID-19 estão disponíveis e protegem contra sintomas graves da doença, diminuem a propagação e a taxa de infecção do vírus. O diagnóstico da COVID-19 é feito por RT-PCR ou Imunocromatografia. Exames clínicos como hemograma auxiliam na avaliação e monitoramento do estado clínico dos pacientes. Contudo, o hemograma pode apresentar diferenças nos parâmetros hematológicos devido a “reprogramação imunológica” induzida pelas vacinas, dificultando a avaliação clínica do paciente?
Objetivo
Este estudo tem o objetivo de avaliar de forma comparativa o efeito da vacinação nos parâmetros hematológicos dos indivíduos com COVID-19 antes e após vacinação através de uma revisão bibliográfica atualizada.
Introdução
A compreensão atual da fisiopatologia moderada a grave da COVID-19 aponta para uma condução de liberação de citocina subjacente um estado hiperinflamatório e pró-coagulante. Neste cenário, glóbulos brancos e plaquetas desempenham papel direto como efetores de tal inflamação e resposta trombótica e podem ser avaliados facilmente no hemograma8.
No hemograma, os achados mais importantes em pacientes com COVID-19 foram leucopenia, linfopenia, trombocitopenia e neutrofilia. Em pacientes graves houve redução nos níveis de hemoglobina. Evidências mostram que alguns receptores nos linfócitos, receptor ACE-2, acaba sendo alvo do vírus causando um efeito citotóxico, levando a linfopenia9. A neutrofilia é causada pelo alto nível sérico de IL-6, assim como estão significativamente associados a resultados clínicos adversos. Isso sugere que a progressão da infecção inicial por SARS-CoV-2 para doença complicada pode ser consequência de uma resposta imunológica exacerbada do hospedeiro e lesão autoimune10. Um mecanismo proposto para a trombocitopenia é de autoanticorpos induzidos pelo vírus, formando complexos imunes e posterior eliminação pelo corpo. Há um consumo na cascata da coagulação com formação de trombos que reduz os níveis da plaqueta linfopenia9.
As evidências clínicas atuais mostram que a vacinação contra COVID-19 protege contra sintomas graves da doença, mas também é uma ferramenta importante para diminuir a propagação do vírus e a taxa de infecção. Várias vacinas contra o COVID-19 estão atualmente licenciadas, usando diferentes modos de ação. Dados epidemiológicos também mostram eficácia diferente, o que também pode influenciar indiretamente na capacidade de diminuir a transmissão do vírus11.
Discussão, Aspectos Hematológicos da COVID-19 e da Vacinação
A vacina BioNTech/Pfizer BNT162b2 de RNA mensageiro conferiu 95% de proteção contra a COVID-19 em pessoas com 16 anos de idade ou mais, a vacina de vetor viral Astrazeneca demonstrou eficácia de 70,4% na prevenção COVID-19 grave e a vacina J&J/Janssen COVID-19 foi 66,3% eficaz na prevenção infecção por COVID-19 em pessoas que receberam a vacina e não tinha evidência de infecção prévia11.
A CoronaVac, também conhecida como vacina SARS-CoV-2 inativada Sinovac, foi amplamente implementada no combate à pandemia de COVID-19, com eficácia geral para a prevenção de COVID-19 sintomático foi de 67,7%12.
O surgimento de variantes do vírus da COVID-19, como a Delta e a Omicron, mais agressivas e possivemente resistentes as vacinas disponíveis, alarmou as autoridades sanitarias. Estudos com esquema de imunização em regime de três doses demosntrou a capacidade de conferir proteção e impedir o agravamento do quadro clínico dos pacientes infectados11,12.
Investigações laboratoriais são indispensáveis para triagem e diagnóstico de casos suspeitos, monitoramento e avaliação prognóstica dos pacientes acometidos pela COVID-196. Amostras do trato respiratório superior, como os da nasofaringe, são consideradas amostras de escolha para o diagnóstico de infecções virais respiratórios devido ao maior rendimento de detecção viral13.
O método molecular ou RT-PCR (Reverse transcription polymerase chain reaction) é o mais utilizado para detecção de COVID-19. Os testes de imunocromatografia que detectam as proteínas virais também demosntraram eficácia acurada, são de rápido diagnóstico e tem baixo custo14. Esses testes são indispensáveis para o diagnóstico da COVID-19.
As alterações hematológicas frequentemente observadas na COVID-19 incluem alterações na contagem total de leucócitos que varia entre normal, reduzida e aumentada16, aumento na contagem de neutrófilos e diminuição de linfócitos (linfopenia)15.
Uma das causas de linfopenia se deve ao aumento da inflamação sistêmica, isto é, grande quantidade de liberação de citocinas pró-inflamatórias desencadeada pelo SARS-CoV-2 que ocorre normalmente de 1 a 2 semanas após início da infecção19 e que consequentemente leva a ativação e recrutamento de neutrófilos20 e a redução de linfócitos21,22.
Awoke e colaboradores revisaram 253 prontuários de pacientes com COVID-19 atendidos no Hospital da Universidade de Gondar e no Hospital de referência Tibebe Ghion, em Bahir Dar, Etiópia e observaram alterações no hemograma caracterizadas por aumento no número total de neutrófilos (neutrofilia) e diminuição na contagem de linfócitos. Em relação aos níveis de hemoglobina e no número de plaquetas não foram observados nenhuma alteração15. Estes achados também foram relatados por Lammichhane e colaboradores que examinaram amostras sanguíneas de 191 pacientes com COVID-19 no Hospital Sumeru em Lalitpur (Nepal), e observaram resultados semelhantes, isto é, neutrofilia e linfopenia, independente da gravidade clínica da doença (leve, moderada ou grave)23.
Estudos recentes demonstraram que cerca de 85% dos pacientes gravemente com COVID-19 apresentam linfopenia. Como previamente descrito, a hipercitocinemia contribui para esse quadro de linfopenia ao estimular a granulopoiese em vez de linfopoiese. Além disso, o SARS-CoV-2 pode induzir a lise direta dos linfócitos ou causar danos nos órgãos linfoides24.
O estudo conduzido por Javadi e colaboradores mostrou a evolução nos hemogramas em pacientes com COVID-19 desde o momento da admissão até o sétimo dia de internação no Hospital Imam Hossein, em Teerã (Irã). Eles observaram que houve aumento na contagem total de leucócitos e neutrófilos corroborando com os autores mencionados anteriormente. Entretanto, encontraram elevação na contagem de plaquetas e redução na concentração de hemoglobina após uma semana de internação25. Interessantemente, Barret e colaboradores também relataram que a contagem de plaquetas aumentou durante a hospitalização, atingindo um pico no oitavo dia e observaram que contagem elevada de plaquetas se associaram a quadros clínicos menos críticos, enquanto aqueles com trombocitopenia estava relacionada à forma grave da doença e à maior mortalidade22.
Cada vez mais as plaquetas são notadas como mediadores nos processos inflamatórios e imunológicos26. As plaquetas são recrutadas ativamente para o local da inflamação, estabelecendo interações com os leucócitos modulando e amplificando a resposta imunes, isto é, secreção de mediadores imunológicos que atraem neutrófilos, monócitos e linfócitos por meio da liberação de citocinas e quimiocinas nos seus grânulos α e, imunológica por secretarem interleucinas mediando a resposta imune durante a infecção viral18,27.
As vacinas contra a COVID-19 promovem alterações transitórias no leucograma, ou seja, na contagem de leucócitos, neutrofilia e linfopenia leve devido a ativação do sistema imune28. Após a vacinação, os linfócitos T específicos da proteína Spike do vírus e os linfócitos B se desenvolvem e circulam juntos com anticorpos SARS-CoV-2 ajudando a prevenir a infecção com isso há uma diminuição temporária de linfócitos na circulação sanguínea devido a migração para os tecidos linfoides. A linfopenia transitória pode indicar uma resposta imune ativa28,29.
Um estudo por Khan e colaboradores, foram comparados os parâmetros hematológicos entre indivíduos imunes e não imunes ao SARS-CoV-2. Os autores observaram que indivíduos não vacinados e sem anticorpos contra o vírus apresentaram redução no número de hemácias, leucócitos, plaquetas, hemoglobina e hematócrito. Verificou-se uma diferença significativa nos níveis de hemoglobina, sugerindo que a ação do SARS-CoV-2 pode interferir tanto na produção quanto na degradação das hemácias. Além do mais, diminuição nos níveis de hemoglobina foram associados a um prognóstico clínico ruim, indicando maior gravidade da COVID-19 e necessidade de intervenção médica.
Interessantemente, Souza-Silva e colaboradores investigaram os parâmetros hematológicos, bioquímicos e imunológicos em 50 indivíduos na primeira e na segunda dose da vacina contra o SARS-CoV-2. Eles observaram que não houve diferenças significativas nos parâmetros hematológicos entre as duas doses, exceto pelo aumento no hematócrito na segunda dose. Verificou-se ainda que, 15 dias após a segunda aplicação da vacina, ocorreu um aumento significativo nos níveis de anticorpos IgM e IgG, além de aumento na contagem de linfócitos, principalmente das subpopulações CD19+, T CD4+ e T CD8+; e de monócitos com ativação M1,31 responsáveis por impulsionar uma resposta inflamatória com liberação de citocinas como IL-6, TNF-α e IFN-γ32. Esses achados sugerem uma resposta imunológica robusta e potencialmente protetora das mucosas, principal local de entrada e ação do vírus31.
Resultados
Nosso estudo possibilitou demonstrar as principais alterações hematológicas observadas em indivíduos com COVID-19, destacando modificações na contagem total de leucócitos caracterizadas por neutrofilia e linfopenia, as quais se mostram relevantes como preditores da resposta imune e do prognóstico clínico da doença.
Conclusões
Ademais, observou-se que a vacinação contra o SARS-CoV-2 tem tido um papel fundamental na defesa imunológica, promovendo a ativação das respostas imunes e adaptativas. Embora, as vacinas contra a COVID-19 possam induzir alterações transitórias no leucograma, observa-se posteriormente o desenvolvimento de linfócitos e um aumento significativo nos níveis séricos de anticorpos IgM e IgG, reforçando sua eficácia contra a infecção.
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