Por: Dr. Fabiano de Abreu Agrela Rodrigues
A resolução de problemas matemáticos não é um mero exercício abstrato; ela exige uma orquestração rigorosa e contínua das redes neurais. No entanto, quando observamos indivíduos diagnosticados com Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), frequentemente nos deparamos com um obstáculo neurofuncional significativo diante dos números. A dificuldade matemática nestes casos, na maioria das vezes, não reside na ausência de capacidade intelectual ou em uma discalculia do desenvolvimento de origem intrínseca, mas sim em uma falha estrutural na alocação de recursos executivos e atencionais.
A atenção sustentada, a capacidade de manter o foco contínuo em uma atividade enquanto se inibem os estímulos e distrações do ambiente, atua como um preditor direto do bom desempenho em habilidades matemáticas específicas. É exatamente o vigor dessa função cognitiva que fortalece a habilidade de elaboração de estratégias e a resolução de problemas complexos. Contudo, a arquitetura cerebral de indivíduos com TDAH apresenta diferenças morfológicas e funcionais que prejudicam essa constância. O transtorno está frequentemente associado a uma disfunção no córtex pré-frontal dorsolateral, região responsável pelo controle da atenção e da impulsividade, além de uma redução volumétrica no cerebelo, que impacta diretamente a coordenação e o sustento da atenção temporal.
Ao analisarmos a neuroimagem dessas interações, descobrimos que estruturas profundas, como o tálamo, atuam como um local comum no cérebro para a leitura, a aritmética e o QI. Os componentes atencionais modulados pelo tálamo são críticos para a realização acadêmica e fornecem a base neurobiológica que explica a frequente comorbidade (coocorrência) entre os déficits de raciocínio lógico-matemático e as falhas atencionais do TDAH.
O alto custo metabólico e cognitivo gerado por essa desorganização mental culmina em um quadro severo de Ansiedade Matemática (AM). Os fracassos repetidos em organizar os pensamentos acelerados para concluir uma equação condicionam o cérebro a perceber a matemática como um cenário de perigo extremo. A neurociência evidencia que a simples antecipação de uma tarefa matemática nestes indivíduos ativa redes associadas a ameaças viscerais, como a ínsula dorso-posterior bilateral. Isso comprova que antecipar um evento matemático temido pode, do ponto de vista do processamento cerebral, ser sentido como uma dor física real. Tal sensação aciona a rede do medo e a resposta instintiva de luta ou fuga, o que acaba bloqueando o acesso do estudante ao córtex pré-frontal e à memória de trabalho, inviabilizando o aprendizado.
- Em conclusão, a maior parte do fracasso escolar na matemática enfrentado por indivíduos com TDAH ocorre por causas extrínsecas e ambientais decorrentes do transtorno, e não por uma inaptidão lógica inata. Portanto, a abordagem educacional e terapêutica não deve se limitar a exigir mais esforço em exercícios de cálculo, mas precisa intervir na modulação executiva do córtex pré-frontal e no controle do estresse antecipatório. Entender o cérebro e seus limites neurobiológicos é o único caminho pragmático para transformar o caos da dispersão em um aprendizado estruturado e eficiente.