A pressão arterial merece atenção desde a infância. A pesquisa Brasil Coração Saudável, da Sociedade Brasileira de Cardiologia, registrou valores classificados como hipertensão em 28,3% dos estudantes avaliados. Outros 11,6% foram enquadrados na faixa de pré-hipertensão. Os resultados reforçam a importância da avaliação cardiovascular na rotina pediátrica e da investigação de alterações renais e metabólicas quando houver indicação clínica.
O levantamento reuniu 6.092 crianças e adolescentes de até 18 anos, em 38 escolas de Minas Gerais, Rio Grande do Sul e São Paulo. A coleta ocorreu entre 3 de junho e 7 de outubro de 2026.
Obesidade concentra maior frequência de pressão alta
O excesso de peso aparece como um dos achados relevantes do levantamento. O sobrepeso foi registrado em 19,5% dos estudantes, enquanto a obesidade atingiu 13,6%. Entre os participantes com obesidade, a proporção classificada com hipertensão chegou a 48,4%. No grupo de 15 a 18 anos com obesidade, alcançou 60,5%.
Essa associação já integra a abordagem clínica da hipertensão pediátrica. Publicada nos Arquivos Brasileiros de Cardiologia, a Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial de 2025 aponta que a hipertensão primária é mais frequente entre adolescentes e pacientes com sobrepeso ou obesidade. Em crianças mais jovens, as causas secundárias merecem atenção especial.
Uma medida elevada precisa ser investigada
A interpretação da pressão arterial na infância depende da idade e das características do paciente. Antes dos 13 anos, os valores são avaliados por referências que consideram idade, sexo e estatura. A partir dos 13 anos, o limiar diagnóstico de consultório corresponde à pressão sistólica igual ou superior a 130 mmHg ou à diastólica igual ou superior a 80 mmHg.
Segundo a diretriz de 2025, a confirmação ambulatorial se baseia em medidas pelo método auscultatório em três atendimentos distintos. A persistência da alteração e a qualidade da técnica são essenciais para uma classificação confiável.
A precisão começa antes da leitura
Repouso, posicionamento e manguito adequado fazem parte da avaliação. A Sociedade Brasileira de Pediatria orienta escolher o manguito pela circunferência do braço e manter o membro apoiado na altura do coração. Falhas nesses cuidados podem comprometer o resultado.
Conforme a indicação clínica, a monitorização ambulatorial da pressão arterial, a MAPA, complementa a investigação. O exame auxilia na identificação da hipertensão do avental branco, caracterizada por elevação no consultório e valores normais fora dele. Também permite reconhecer a hipertensão mascarada, quando a medida casual parece normal, mas há elevação em outros períodos.
O papel do laboratório na avaliação pediátrica
Os exames laboratoriais contribuem para investigar causas e alterações associadas à hipertensão. No manual dedicado ao tema, a Sociedade Brasileira de Pediatria inclui na avaliação inicial exames de urina e análises sanguíneas, como eletrólitos, ureia, creatinina e perfil lipídico. A solicitação deve acompanhar a história clínica e os achados do exame físico.
Em orientação publicada em março de 2026, a entidade reforçou a utilização da urinálise e da creatinina sérica no rastreamento renal de grupos de maior risco. Entre eles estão crianças e adolescentes com hipertensão, diabetes, obesidade, histórico de doença renal, prematuridade ou baixo peso ao nascer.
Hábitos e acompanhamento entram na mesma avaliação
A pesquisa também registrou aspectos da rotina dos participantes. Entre os estudantes avaliados, 59% relataram passar mais de três horas por dia diante de telas, enquanto 66% informaram apenas uma a duas horas semanais de atividade física.
Esses dados descrevem os hábitos da população estudada. Isoladamente, não estabelecem a causa das alterações pressóricas observadas. Ainda assim, ajudam a contextualizar a avaliação cardiovascular e a orientar a conversa com as famílias.
A diretriz brasileira recomenda a medida anual da pressão arterial a partir dos três anos. Alimentação adequada, atividade física regular e controle do peso integram o cuidado dos pacientes com pressão elevada.
Para a prática clínica, identificar uma alteração é o início do acompanhamento. Confirmar o diagnóstico, investigar causas e selecionar exames conforme cada caso permite transformar o achado em uma conduta adequada à idade e às necessidades da criança.