Um estudo publicado no BMJ Public Health revelou uma distância expressiva entre identificar a hipertensão e conseguir controlá-la. Entre os participantes que preencheram os critérios da pesquisa para a condição, 58,8% não relataram diagnóstico prévio nem uso de medicamentos anti-hipertensivos. Mesmo entre os tratados, 50,2% apresentaram pressão acima do limite de controle adotado pelos pesquisadores.
Para os serviços de saúde, os resultados renovam a discussão sobre detecção precoce, acompanhamento e avaliação do risco cardiovascular.
Retrato da população estudada na Inglaterra
1,4 milhão
de adultos incluídos na análise do programa Our Future Health.
58,8%
dos participantes classificados com hipertensão não relataram diagnóstico anterior nem uso de anti-hipertensivos.
50,2%
dos participantes tratados não atingiram o critério de controle pressórico utilizado na pesquisa.
Fonte, Liu e colaboradores, BMJ Public Health, 2026. Os percentuais se referem a grupos distintos dentro da população estudada.
Uma investigação de grande escala
Conduzida por pesquisadores de Oxford Population Health, a análise utilizou dados do programa britânico Our Future Health, coletados entre 2022 e 2025 em mais de 200 centros de recrutamento na Inglaterra.
Foram incluídos adultos com 18 anos ou mais e medidas de pressão arterial disponíveis. A pesquisa classificou como hipertensão a pressão sistólica igual ou superior a 140 mmHg, a diastólica igual ou superior a 90 mmHg ou o uso autorrelatado de medicamentos anti-hipertensivos.
Ao todo, 37,2% dos participantes atenderam a essa definição. Após padronização por idade, a prevalência foi de 41,9% entre homens e 28,6% entre mulheres.
A frequência aumentou com o envelhecimento, mas o problema apareceu desde a vida adulta jovem. Segundo a divulgação institucional da Universidade de Oxford, aproximadamente 15% dos participantes de 18 a 39 anos preencheram os critérios para hipertensão, proporção que chegou a cerca de 71% entre aqueles com 80 anos ou mais.
O que significa hipertensão não detectada
A classificação merece atenção. No estudo, a detecção foi definida pelo relato de diagnóstico anterior por um profissional de saúde ou pelo uso de anti-hipertensivos. Portanto, o percentual de 58,8% descreve participantes classificados com hipertensão pela pesquisa, mas sem esses registros autorrelatados.
Esse achado exige distinguir a classificação epidemiológica da confirmação diagnóstica individual. A Organização Mundial da Saúde orienta que o diagnóstico considere medidas elevadas em dois dias diferentes. A instituição ressalta que a maioria das pessoas com hipertensão não apresenta sintomas, o que torna a aferição da pressão indispensável para reconhecer a condição.
Na diretriz britânica do National Institute for Health and Care Excellence, NICE, a investigação de valores elevados em consultório inclui monitorização ambulatorial da pressão arterial, MAPA, ou monitorização residencial, quando a primeira opção não é adequada. A confirmação fora do consultório integra o processo diagnóstico recomendado.
Tratamento prescrito e pressão controlada são resultados diferentes
A Universidade de Oxford destaca que metade dos participantes em uso de medicamentos permanecia com valores elevados na avaliação. Para Iain Turnbull, pesquisador da instituição e médico do programa Our Future Health, os resultados sustentam a necessidade de uma detecção mais ativa e de decisões terapêuticas que considerem o risco cardiovascular previsto, além dos níveis pressóricos.
A dimensão internacional ajuda a contextualizar o problema. Segundo estimativas da OMS referentes a 2024, 1,4 bilhão de adultos de 30 a 79 anos viviam com hipertensão. Cerca de 44% desconheciam a condição e apenas 23% apresentavam controle. Esses números se referem a uma população e a uma faixa etária diferentes das avaliadas na pesquisa inglesa.
Contexto brasileiro
No Brasil, quase três em cada dez adultos das capitais relatam diagnóstico
Dados do Ministério da Saúde dimensionam a presença da hipertensão na população brasileira acompanhada pelo Vigitel. Segundo o relatório Vigitel Brasil 2006–2024, 29,7% dos adultos com 18 anos ou mais residentes nas capitais dos 26 estados e no Distrito Federal relataram diagnóstico médico de hipertensão em 2024. Em 2006, essa proporção era de 22,6%.
29,7%
dos adultos das capitais e do Distrito Federal relataram diagnóstico médico de hipertensão em 2024.
Ministério da Saúde, Vigitel Brasil 2006–2024, página 131.
A abrangência e o método do levantamento precisam acompanhar a leitura desses números. O Vigitel utiliza entrevistas telefônicas e, nesse indicador, registra o diagnóstico informado pelos participantes. O resultado representa o conjunto das capitais e do Distrito Federal, sem abranger diretamente todos os municípios brasileiros.
Por depender do relato de um diagnóstico já recebido, o indicador não quantifica os casos ainda desconhecidos. Também não permite comparação direta com os 37,2% encontrados no estudo inglês, cuja classificação incorporou medidas de pressão arterial e uso de medicamentos.
Os levantamentos oferecem perspectivas distintas sobre a hipertensão, uma centrada no diagnóstico autorreferido e outra na identificação da condição durante a avaliação dos participantes.
Onde a medicina laboratorial participa
A avaliação do paciente com hipertensão inclui a investigação de alterações metabólicas e de possíveis danos a órgãos-alvo. A diretriz do NICE recomenda relação albumina/creatinina urinária, pesquisa de hematúria, hemoglobina glicada, eletrólitos, creatinina, estimativa da taxa de filtração glomerular, colesterol total e HDL. Esses exames compõem a avaliação cardiovascular e renal associada ao cuidado clínico.
Exames que integram a avaliação
Urina
Relação albumina/creatinina e pesquisa de hematúria.
Avaliação renal e eletrolítica
Creatinina, estimativa da taxa de filtração glomerular e eletrólitos.
Avaliação metabólica
Hemoglobina glicada, colesterol total e HDL.
Exames recomendados na diretriz britânica NICE NG136, seção 1.3.3.
Para a medicina laboratorial, essa integração define uma contribuição concreta. A aferição da pressão permite reconhecer a suspeita de hipertensão, enquanto os exames ajudam a caracterizar condições associadas e comprometimento de órgãos-alvo. O valor clínico depende da interpretação conjunta dos resultados e do acompanhamento do paciente.
Evidência para melhorar o cuidado
Por seu desenho transversal, o estudo inglês descreve a situação observada na avaliação inicial dos participantes. Ele não demonstra quais fatores causaram as falhas de detecção ou controle, e seus percentuais não devem ser apresentados como estimativas brasileiras.
Os autores defendem prevenção em escala populacional e tratamento direcionado às pessoas com maior risco cardiovascular. A questão central é transformar o reconhecimento da pressão elevada em avaliação, confirmação diagnóstica e cuidado contínuo, antes que surjam complicações cardíacas, cerebrovasculares ou renais.