Hipertensão sem diagnóstico, estudo revela falhas no controle | Newslab

Hipertensão sem diagnóstico, estudo expõe lacunas na detecção e no controle da pressão arterial

Análise de 1,4 milhão de adultos na Inglaterra encontrou hipertensão não detectada em quase seis de cada dez participantes classificados com a condição. No Brasil, dados oficiais mostram que 29,7% dos adultos das capitais e do Distrito Federal relataram diagnóstico médico em 2024

Um estudo publicado no BMJ Public Health revelou uma distância expressiva entre identificar a hipertensão e conseguir controlá-la. Entre os participantes que preencheram os critérios da pesquisa para a condição, 58,8% não relataram diagnóstico prévio nem uso de medicamentos anti-hipertensivos. Mesmo entre os tratados, 50,2% apresentaram pressão acima do limite de controle adotado pelos pesquisadores.

Para os serviços de saúde, os resultados renovam a discussão sobre detecção precoce, acompanhamento e avaliação do risco cardiovascular.

Retrato da população estudada na Inglaterra

1,4 milhão

de adultos incluídos na análise do programa Our Future Health.

58,8%

dos participantes classificados com hipertensão não relataram diagnóstico anterior nem uso de anti-hipertensivos.

50,2%

dos participantes tratados não atingiram o critério de controle pressórico utilizado na pesquisa.

Fonte, Liu e colaboradores, BMJ Public Health, 2026. Os percentuais se referem a grupos distintos dentro da população estudada.

Uma investigação de grande escala

Conduzida por pesquisadores de Oxford Population Health, a análise utilizou dados do programa britânico Our Future Health, coletados entre 2022 e 2025 em mais de 200 centros de recrutamento na Inglaterra.

Foram incluídos adultos com 18 anos ou mais e medidas de pressão arterial disponíveis. A pesquisa classificou como hipertensão a pressão sistólica igual ou superior a 140 mmHg, a diastólica igual ou superior a 90 mmHg ou o uso autorrelatado de medicamentos anti-hipertensivos.

Ao todo, 37,2% dos participantes atenderam a essa definição. Após padronização por idade, a prevalência foi de 41,9% entre homens e 28,6% entre mulheres.

A frequência aumentou com o envelhecimento, mas o problema apareceu desde a vida adulta jovem. Segundo a divulgação institucional da Universidade de Oxford, aproximadamente 15% dos participantes de 18 a 39 anos preencheram os critérios para hipertensão, proporção que chegou a cerca de 71% entre aqueles com 80 anos ou mais.

O que significa hipertensão não detectada

A classificação merece atenção. No estudo, a detecção foi definida pelo relato de diagnóstico anterior por um profissional de saúde ou pelo uso de anti-hipertensivos. Portanto, o percentual de 58,8% descreve participantes classificados com hipertensão pela pesquisa, mas sem esses registros autorrelatados.

Esse achado exige distinguir a classificação epidemiológica da confirmação diagnóstica individual. A Organização Mundial da Saúde orienta que o diagnóstico considere medidas elevadas em dois dias diferentes. A instituição ressalta que a maioria das pessoas com hipertensão não apresenta sintomas, o que torna a aferição da pressão indispensável para reconhecer a condição.

Na diretriz britânica do National Institute for Health and Care Excellence, NICE, a investigação de valores elevados em consultório inclui monitorização ambulatorial da pressão arterial, MAPA, ou monitorização residencial, quando a primeira opção não é adequada. A confirmação fora do consultório integra o processo diagnóstico recomendado.

Tratamento prescrito e pressão controlada são resultados diferentes

A Universidade de Oxford destaca que metade dos participantes em uso de medicamentos permanecia com valores elevados na avaliação. Para Iain Turnbull, pesquisador da instituição e médico do programa Our Future Health, os resultados sustentam a necessidade de uma detecção mais ativa e de decisões terapêuticas que considerem o risco cardiovascular previsto, além dos níveis pressóricos.

A dimensão internacional ajuda a contextualizar o problema. Segundo estimativas da OMS referentes a 2024, 1,4 bilhão de adultos de 30 a 79 anos viviam com hipertensão. Cerca de 44% desconheciam a condição e apenas 23% apresentavam controle. Esses números se referem a uma população e a uma faixa etária diferentes das avaliadas na pesquisa inglesa.

Contexto brasileiro

No Brasil, quase três em cada dez adultos das capitais relatam diagnóstico

Dados do Ministério da Saúde dimensionam a presença da hipertensão na população brasileira acompanhada pelo Vigitel. Segundo o relatório Vigitel Brasil 2006–2024, 29,7% dos adultos com 18 anos ou mais residentes nas capitais dos 26 estados e no Distrito Federal relataram diagnóstico médico de hipertensão em 2024. Em 2006, essa proporção era de 22,6%.

29,7%

dos adultos das capitais e do Distrito Federal relataram diagnóstico médico de hipertensão em 2024.

Ministério da Saúde, Vigitel Brasil 2006–2024, página 131.

A abrangência e o método do levantamento precisam acompanhar a leitura desses números. O Vigitel utiliza entrevistas telefônicas e, nesse indicador, registra o diagnóstico informado pelos participantes. O resultado representa o conjunto das capitais e do Distrito Federal, sem abranger diretamente todos os municípios brasileiros.

Por depender do relato de um diagnóstico já recebido, o indicador não quantifica os casos ainda desconhecidos. Também não permite comparação direta com os 37,2% encontrados no estudo inglês, cuja classificação incorporou medidas de pressão arterial e uso de medicamentos.

Os levantamentos oferecem perspectivas distintas sobre a hipertensão, uma centrada no diagnóstico autorreferido e outra na identificação da condição durante a avaliação dos participantes.

Onde a medicina laboratorial participa

A avaliação do paciente com hipertensão inclui a investigação de alterações metabólicas e de possíveis danos a órgãos-alvo. A diretriz do NICE recomenda relação albumina/creatinina urinária, pesquisa de hematúria, hemoglobina glicada, eletrólitos, creatinina, estimativa da taxa de filtração glomerular, colesterol total e HDL. Esses exames compõem a avaliação cardiovascular e renal associada ao cuidado clínico.

Exames que integram a avaliação

Urina
Relação albumina/creatinina e pesquisa de hematúria.

Avaliação renal e eletrolítica
Creatinina, estimativa da taxa de filtração glomerular e eletrólitos.

Avaliação metabólica
Hemoglobina glicada, colesterol total e HDL.

Exames recomendados na diretriz britânica NICE NG136, seção 1.3.3.

Para a medicina laboratorial, essa integração define uma contribuição concreta. A aferição da pressão permite reconhecer a suspeita de hipertensão, enquanto os exames ajudam a caracterizar condições associadas e comprometimento de órgãos-alvo. O valor clínico depende da interpretação conjunta dos resultados e do acompanhamento do paciente.

Evidência para melhorar o cuidado

Por seu desenho transversal, o estudo inglês descreve a situação observada na avaliação inicial dos participantes. Ele não demonstra quais fatores causaram as falhas de detecção ou controle, e seus percentuais não devem ser apresentados como estimativas brasileiras.

Os autores defendem prevenção em escala populacional e tratamento direcionado às pessoas com maior risco cardiovascular. A questão central é transformar o reconhecimento da pressão elevada em avaliação, confirmação diagnóstica e cuidado contínuo, antes que surjam complicações cardíacas, cerebrovasculares ou renais.

Referências

Liu W e colaboradores. Hypertension prevalence, detection, treatment and control among 1.4 million adults in England. BMJ Public Health. 2026;4:e004815.
Acessar estudo.

Universidade de Oxford. Divulgação institucional dos resultados do estudo Our Future Health.
Consultar publicação.

Ministério da Saúde. Vigitel Brasil 2006–2024. Seção Diagnóstico médico de hipertensão arterial, página 131.
Consultar relatório oficial.

Organização Mundial da Saúde. Hypertension. Informações sobre diagnóstico, prevalência e complicações.
Consultar fonte.

National Institute for Health and Care Excellence. Hypertension in adults, diagnosis and management. Diretriz NG136.
Consultar recomendações.