Câncer do colo do útero: 62% nos estádios 0 a II | Newslab

62% dos casos de câncer do colo do útero com estadiamento conhecido chegaram aos hospitais antes das fases mais avançadas

Levantamento da Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica analisou registros hospitalares de 2023 e encontrou informação sobre a extensão da doença em 84% dos casos. Entre eles, 62% estavam entre os estádios 0 e II, grupo que reúne desde lesões que ainda não invadiram o colo do útero até tumores que podem ter se espalhado para áreas próximas. Outros 38% estavam nos estádios III ou IV, quando a doença já apresenta maior extensão. O INCA estima 19.310 novos casos por ano no Brasil entre 2026 e 2028

O Brasil deve registrar 19.310 novos casos de câncer do colo do útero por ano entre 2026 e 2028, segundo estimativas do Instituto Nacional de Câncer (INCA). Excluindo o câncer de pele não melanoma, é o terceiro tumor mais incidente entre as mulheres brasileiras, atrás dos cânceres de mama e colorretal. Um levantamento da Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO), realizado a partir do Registro Hospitalar de Câncer (RHC), identificou 4.667 registros hospitalares da doença em 2023. Em 3.918 deles, equivalentes a 84%, havia informação sobre o estadiamento, classificação utilizada para indicar o quanto a doença se estendeu.

Entre esses registros, 2.430, ou 62%, estavam entre os estádios 0 e II. Esse grupo reúne situações diferentes: foram 1.094 registros no estádio 0, quando há uma lesão que ainda não invadiu o colo do útero, 700 no estádio I e 636 no II, que pode incluir tumores que já se espalharam para áreas próximas. Outros 946 casos estavam no estádio III e 542 no IV. Assim, os estádios III e IV somaram 1.488 registros (38% daqueles com estadiamento conhecido) e correspondem às fases de maior extensão da doença.

Os dados do RHC refletem os casos atendidos nos hospitais participantes da base e não correspondem a todos os diagnósticos de câncer do colo do útero ocorridos no Brasil. Além disso, 749 dos 4.667 registros analisados (16%), não tinham informação sobre o estadiamento. Por esse motivo, os percentuais de 62% e 38% consideram apenas os casos em que essa informação estava disponível.

A principal causa do câncer do colo do útero é a infecção persistente por alguns tipos do papilomavírus humano, o HPV, especialmente aqueles associados ao desenvolvimento de câncer, entre eles os HPV 16 e 18. A vacinação reduz o risco de infecção pelos tipos contemplados pelo imunizante, enquanto o rastreamento permite detectar a presença do vírus e lesões precursoras antes do desenvolvimento de um câncer invasivo.

A distribuição por idade mostra que os registros se concentram principalmente a partir dos 30 anos. Entre os 4.664 casos com faixa etária informada, 1.087 ocorreram entre mulheres de 40 a 49 anos, grupo com o maior número de registros, seguido pelas mulheres de 50 a 59 anos, com 982 casos, e de 30 a 39 anos, com 930. Foram ainda 752 registros entre 60 e 69 anos, 467 entre 70 e 79 anos e 203 a partir dos 80 anos. Entre mulheres com menos de 30 anos, foram 243 registros.

O câncer do colo do útero costuma se desenvolver lentamente e pode não provocar sintomas no início. Quando aparecem, as manifestações podem incluir sangramento vaginal fora do período menstrual ou depois da relação sexual, corrimento vaginal persistente, dor durante a relação sexual e dor pélvica. Em fases mais avançadas, também podem ocorrer perda de peso, cansaço e inchaço nas pernas.

De acordo com a cirurgiã oncológica Viviane Rezende de Oliveira, vice-presidente da SBCO, uma característica importante desse câncer é a possibilidade de agir antes do desenvolvimento de uma doença invasiva. “O câncer do colo do útero pode levar anos para se desenvolver. Nesse período, é possível identificar a presença do HPV e alterações que ainda não se transformaram em um câncer invasivo. Por isso, vacinação e rastreamento são estratégias complementares. A mulher não precisa esperar ter sintomas para procurar o serviço de saúde, porque justamente o objetivo do rastreamento é encontrar essas alterações antes que a doença avance”.

O rastreamento do câncer do colo do útero passa por uma mudança no SUS com a implantação do teste DNA-HPV. O exame identifica diretamente o material genético de tipos do HPV associados ao câncer, inclusive em pessoas sem sintomas. A tecnologia começou a ser implementada gradualmente na rede pública. Pelas novas diretrizes brasileiras, o teste molecular é o exame principal de rastreamento para mulheres e outras pessoas com colo do útero de 25 a 64 anos que já tiveram atividade sexual. Quando o resultado é negativo, o intervalo recomendado para a repetição é de cinco anos.

A diferença em relação ao Papanicolau está no que cada exame procura. Enquanto o Papanicolau analisa células do colo do útero em busca de alterações, o DNA-HPV identifica diretamente o material genético do vírus. Dessa forma, é possível detectar tipos de HPV associados ao câncer antes mesmo do aparecimento de alterações nas células. Nos locais onde o novo teste ainda não está disponível, o Papanicolau continua sendo utilizado para o rastreamento.

A vacinação contra o HPV é outra estratégia de prevenção. Pelo calendário de rotina do SUS, a vacina é indicada para meninas e meninos de 9 a 14 anos, em dose única. Em 2026, o Ministério da Saúde prorrogou até 31 de dezembro uma estratégia para alcançar adolescentes e jovens de 15 a 19 anos que não foram vacinados na idade recomendada ou não possuem registro da imunização. A vacina oferecida pelo SUS protege contra quatro tipos do HPV, os tipos 6, 11, 16 e 18. Os dois últimos estão relacionados a grande parte dos cânceres causados pelo vírus. A vacinação, no entanto, não substitui o rastreamento, já que não oferece proteção contra todos os tipos do HPV associados ao câncer.

Quando o câncer do colo do útero é confirmado, exames clínicos e de imagem ajudam a determinar até onde a doença avançou, informação utilizada para definir o tratamento. Entre os exames que podem ser indicados estão a ressonância magnética e a tomografia computadorizada, além de avaliações para verificar se o tumor atinge linfonodos ou outros órgãos.

A escolha do tratamento depende principalmente da extensão da doença, das condições da paciente e, em alguns casos, do desejo de ter filhos. A cirurgia tem papel especialmente importante nas fases iniciais e pode variar de procedimentos que preservam o útero até a histerectomia, que envolve sua retirada. Quando a doença está mais avançada, outras estratégias, como radioterapia e quimioterapia, podem ser necessárias.

Conforme explica o cirurgião oncológico Paulo Henrique de Sousa Fernandes, presidente da SBCO, ampliar o acesso às tecnologias disponíveis precisa ser acompanhado pela organização do atendimento. “O SUS dispõe da vacinação contra o HPV e está ampliando o rastreamento com o teste DNA-HPV. Precisamos aumentar a adesão a essas estratégias e garantir um fluxo que permita que, diante de um resultado alterado, a mulher tenha acesso à investigação e ao acompanhamento necessários. Identificar as alterações antes que a doença avance pode permitir tratamentos menos complexos e aumentar as possibilidades de controle do câncer”.