Diferenciar precocemente a síndrome de Takotsubo (TTS) da síndrome coronariana aguda (SCA) permanece um desafio clínico. As duas condições podem se apresentar com dor torácica, alterações eletrocardiográficas e elevação de biomarcadores cardíacos, o que frequentemente exige angiografia coronária invasiva para excluir uma lesão coronariana responsável pelo quadro. Um estudo publicado no European Heart Journal apresenta uma estratégia baseada em biomarcadores sanguíneos que pode acrescentar objetividade a esse diagnóstico diferencial.
Batizado de BioTAK, o escore combina quatro parâmetros laboratoriais (NT-proBNP, PAM, sLOX-1 e LDL-colesterol) ao sexo do paciente. Desenvolvido e posteriormente validado em uma população independente, o modelo apresentou área sob a curva ROC (AUC) de 0,97 na coorte inicial e de 0,93 na validação externa.
Ao aplicar limiares previamente definidos para baixa e alta probabilidade de Takotsubo, os pesquisadores conseguiram classificar quase 90% dos pacientes antes da angiografia coronária invasiva. Os resultados apontam para uma possível utilização futura do perfil de biomarcadores como ferramenta de apoio à triagem de pacientes que chegam aos serviços de saúde com suspeita de síndrome coronariana aguda.
Um diagnóstico que ainda depende da exclusão de doença coronariana
A síndrome de Takotsubo caracteriza-se por disfunção sistólica transitória do ventrículo esquerdo, acompanhada por alterações regionais da contratilidade que não seguem o território de uma única artéria coronária epicárdica.
O problema diagnóstico está justamente na semelhança com uma síndrome coronariana aguda. Segundo os autores, a TTS corresponde a aproximadamente 1% a 4% dos pacientes inicialmente avaliados com suspeita de SCA.
Na prática, seu diagnóstico reúne avaliação clínica, histórico médico, psiquiátrico e neurológico, exames de imagem cardíaca seriados e exclusão de uma lesão coronariana culpada, geralmente por angiografia invasiva.
Já existem ferramentas clínicas para auxiliar nessa diferenciação, entre elas o InterTAK Diagnostic Score. Entretanto, esse modelo incorpora informações como antecedentes neuropsiquiátricos e identificação de fatores desencadeantes. O novo trabalho buscou construir uma alternativa apoiada em variáveis objetivas e mensuráveis antes da angiografia.
Mais de 3,6 mil pacientes avaliados
A investigação reuniu 3.615 pacientes com síndrome coronariana aguda ou Takotsubo provenientes de registros com populações sobrepostas. As amostras sanguíneas foram obtidas antes da angiografia coronária invasiva, permitindo avaliar biomarcadores cardiovasculares já estabelecidos e candidatos emergentes.
O BioTAK foi desenvolvido em uma coorte de 1.823 pacientes: 1.754 apresentavam SCA e 69 tinham TTS. A seleção inicial das variáveis utilizou métodos computacionais, seguida pela construção do escore por regressão logística.
A validação externa foi realizada em uma população independente de 1.792 pacientes, dos quais 1.715 tinham síndrome coronariana aguda e 77, síndrome de Takotsubo.
Na etapa de desenvolvimento, o BioTAK alcançou AUC de 0,97, com intervalo de confiança de 95% entre 0,95 e 0,98. Na validação externa, manteve elevada capacidade discriminatória, com AUC de 0,93 e intervalo de confiança de 95% entre 0,90 e 0,96.
Quatro parâmetros laboratoriais compõem o BioTAK
A composição final do escore reflete processos biológicos distintos envolvidos nas duas condições.
O NT-proBNP representa o estresse miocárdico. O LDL-colesterol acrescenta informação relacionada ao metabolismo lipídico. Os outros dois componentes são biomarcadores menos presentes na rotina diagnóstica: a peptidilglicina alfa-amidante mono-oxigenase (PAM) e o receptor solúvel semelhante à lectina para LDL oxidada 1 (sLOX-1).
No estudo, a concentração circulante de PAM foi maior nos pacientes com Takotsubo. A enzima participa da ativação de diferentes peptídeos bioativos e está relacionada a processos envolvendo atividade simpática e regulação da ansiedade.
O comportamento do sLOX-1 ocorreu no sentido oposto. Considerado um marcador relacionado à ativação endotelial e à instabilidade da placa aterosclerótica, apresentou concentrações substancialmente maiores nos pacientes com síndrome coronariana aguda.
A análise também mostrou diferenças no perfil lipídico: pacientes com Takotsubo apresentaram LDL-colesterol mais baixo e HDL-colesterol mais alto. Entre as variáveis avaliadas pelos pesquisadores, sLOX-1 e PAM estiveram entre aquelas com maior importância preditiva para distinguir as duas condições.
O resultado sugere que a força do BioTAK não está em um biomarcador isolado, mas na combinação de sinais provenientes de mecanismos fisiopatológicos diferentes.
Limiares permitem separar grupos de probabilidade
Os pesquisadores converteram as cinco variáveis do modelo em um sistema de pontuação. Valores inferiores a 27 pontos foram classificados como baixa probabilidade de Takotsubo; resultados entre 27 e 32 pontos formaram a faixa intermediária; pontuações iguais ou superiores a 33 indicaram alta probabilidade.
Na coorte de desenvolvimento, 1.583 pacientes, ou 86,8%, ficaram no grupo de baixa probabilidade. Outros 44, equivalentes a 2,4%, foram classificados na faixa de alta probabilidade. Somados, 1.627 dos 1.823 participantes — 89,2% — puderam ser direcionados para um dos dois extremos do escore, deixando 10,8% na categoria intermediária.
Em um limiar ainda mais baixo, de até 21 pontos, utilizado para identificar pacientes com probabilidade muito baixa de TTS, a sensibilidade foi de 98,6% e o valor preditivo negativo chegou a 99,9% na coorte de desenvolvimento.
Os autores também relatam desempenho consistente em pacientes com e sem elevação do segmento ST e em outros subgrupos clínicos avaliados.
Esses resultados não significam que o BioTAK possa, neste momento, substituir a angiografia coronária. O estudo avalia o escore como ferramenta de suporte à identificação precoce e à estratificação diagnóstica.
O laboratório ganha espaço no diagnóstico diferencial
Um aspecto particularmente relevante do trabalho para a medicina laboratorial é a tentativa de deslocar parte da diferenciação entre Takotsubo e síndrome coronariana aguda para um conjunto de parâmetros objetivos obtidos a partir de amostras sanguíneas.
Estudos anteriores já investigaram biomarcadores cardiovasculares convencionais nessa distinção. Segundo os autores, entretanto, o desempenho diagnóstico observado em validações internacionais mais amplas permaneceu limitado. Assinaturas de microRNAs também foram estudadas, mas enfrentam obstáculos relacionados a custo, tempo de resposta e complexidade técnica.
O BioTAK adota uma abordagem diferente: integra biomarcadores associados a mecanismos biológicos distintos em um único escore.
Há, contudo, uma limitação prática importante. Embora NT-proBNP e LDL-colesterol estejam amplamente incorporados à medicina laboratorial, ensaios para sLOX-1 e PAM ainda não fazem parte da rotina dos laboratórios hospitalares.
Os métodos utilizados para esses dois marcadores apresentaram características analíticas que, segundo os pesquisadores, favorecem uma futura adaptação a plataformas automatizadas de imunoensaio. Atualmente, porém, o tempo de resposta dos ensaios empregados para sLOX-1 e PAM situa-se em aproximadamente três a cinco horas.
Portanto, a tradução do BioTAK para a prática clínica depende não apenas de novas validações, mas também da disponibilidade operacional desses testes em condições compatíveis com o atendimento cardiovascular agudo.
Validação externa fortalece os resultados, mas não encerra a investigação
O estudo apresenta pontos metodológicos importantes. As amostras foram coletadas prospectivamente e processadas, armazenadas e analisadas segundo protocolos padronizados. Biomarcadores estabelecidos, como troponina T de alta sensibilidade, proteína C-reativa de alta sensibilidade e NT-proBNP, foram determinados centralmente ou nos hospitais participantes, enquanto os marcadores emergentes foram avaliados por ensaios validados.
Os próprios autores, no entanto, ressaltam que as coortes de desenvolvimento e validação derivam de estruturas de registro estreitamente relacionadas. Por isso, consideram desejável reproduzir o desempenho do escore em outras populações independentes.
Outra ressalva diz respeito aos pacientes com elevação do segmento ST ou critérios de alto risco. Mesmo diante de elevada probabilidade de Takotsubo, a angiografia coronária invasiva pode continuar indicada. Nesses cenários, um escore laboratorial não deve retardar procedimentos estabelecidos para o manejo de uma possível síndrome coronariana aguda.
O BioTAK deve ser interpretado, portanto, como uma ferramenta em investigação para apoiar — e não substituir — a avaliação cardiovascular.
Biomarcadores podem tornar a avaliação mais objetiva
O estudo acrescenta uma perspectiva relevante ao diagnóstico da síndrome de Takotsubo. Em vez de depender exclusivamente de características clínicas, antecedentes e exames de imagem, o BioTAK explora diferenças mensuráveis entre a fisiopatologia da TTS e a da síndrome coronariana aguda.
A manutenção de uma AUC de 0,93 na validação externa e a classificação de aproximadamente nove em cada dez pacientes nas categorias de baixa ou alta probabilidade sustentam a continuidade da investigação. Para que a estratégia alcance a rotina, entretanto, ainda será necessário confirmar sua performance em outras populações e viabilizar a mensuração rápida e amplamente disponível de PAM e sLOX-1.
Se essas etapas forem cumpridas, o laboratório poderá assumir um papel mais direto em uma decisão que hoje depende, em grande medida, da integração entre apresentação clínica, imagem cardiovascular e investigação invasiva.
Referência científica: Wenzl FA, Schweiger V, Smolle MA, et al. Takotsubo syndrome diagnosis: the biomarker-based BioTAK score. European Heart Journal. Publicado em 31 de agosto de 2026. DOI: 10.1093/eurheartj/ehag597.