A divulgação do diagnóstico de doença de Creutzfeldt-Jakob do influenciador e especialista em aviação Lito Sousa, criador do canal Aviões e Músicas, colocou sob atenção pública uma das enfermidades mais raras e complexas da neurologia. O anúncio foi feito por sua família e equipe em um comunicado publicado em 21 de agosto. Os resultados dos exames, a classificação e a forma da doença não foram divulgados. Portanto, não há base pública para reconstruir seu percurso diagnóstico ou atribuir um subtipo ao caso.
Para a medicina diagnóstica, a repercussão abre uma discussão que ultrapassa o episódio individual. A doença de Creutzfeldt-Jakob, DCJ, pertence ao grupo das doenças priônicas humanas e costuma se manifestar como uma demência rapidamente progressiva, acompanhada por combinações variáveis de alterações motoras, visuais, cerebelares, comportamentais e psiquiátricas. O desafio está na sobreposição com condições de evolução acelerada que podem ser infecciosas, autoimunes, metabólicas, tóxicas, vasculares, neoplásicas ou neurodegenerativas. Algumas são tratáveis. Reconhecê-las em tempo hábil é uma das razões pelas quais a suspeita de DCJ exige investigação sistemática, sem depender de um achado isolado.
Uma doença causada por uma proteína mal conformada
Os príons diferem dos agentes infecciosos convencionais. Não contêm ácido nucleico. O processo patológico envolve a mudança de conformação da proteína priônica celular, PrPC, codificada pelo gene PRNP, para formas anormais capazes de induzir o dobramento inadequado de outras moléculas da mesma proteína. A propagação dessa conformação favorece o acúmulo de proteína priônica patológica, dano neuronal, gliose e alterações espongiformes no tecido cerebral.
Essa biologia explica parte da singularidade das doenças priônicas. O período de incubação pode ser prolongado, enquanto a fase clínica tende a ser curta. Uma revisão publicada em 2024 na Nature Reviews Disease Primers destaca a ausência de material genético no agente, sua resistência incomum à degradação e a rápida progressão depois do início dos sintomas como características centrais desse grupo de enfermidades.
A incidência reconhecida da DCJ situa-se em torno de um a dois casos por milhão de habitantes por ano. Aproximadamente 85% dos casos são classificados como esporádicos, sem fonte infecciosa ou mutação hereditária identificada. Entre 5% e 15% estão associados a variantes patogênicas em PRNP. As formas adquiridas são muito raras e incluem episódios iatrogênicos historicamente relacionados a determinados enxertos, hormônios humanos obtidos de cadáveres e instrumentos neurocirúrgicos contaminados.
DCJ clássica não é sinônimo de “doença da vaca louca”
Uma das imprecisões mais frequentes na comunicação pública é tratar a DCJ clássica e sua variante como a mesma condição. A variante da doença de Creutzfeldt-Jakob, vDCJ, foi associada à exposição alimentar ao agente da encefalopatia espongiforme bovina clássica. Ela apresenta características epidemiológicas, clínicas e neuropatológicas próprias.
A DCJ esporádica, responsável pela maior parte dos casos, não tem relação estabelecida com o consumo de carne bovina. Segundo a Nota Informativa nº 2/2025 da Coordenação-Geral de Laboratórios de Saúde Pública do Ministério da Saúde, não há registro de vDCJ no Brasil. O mesmo documento informa que a forma esporádica corresponde a cerca de 85% dos casos confirmados.
Também não há evidência de transmissão da DCJ esporádica pelo ar, pelo toque, por abraços, beijos, compartilhamento de utensílios ou convivência cotidiana. Os cuidados especiais de biossegurança dizem respeito sobretudo a tecidos de alta infectividade e a procedimentos capazes de expor instrumentos ou profissionais a esses materiais.
Quando a velocidade da demência muda a investigação
Demência rapidamente progressiva é uma descrição sindrômica, não um diagnóstico. Em geral, a expressão é empregada para declínio cognitivo que evolui para demência em menos de um ou dois anos, muitas vezes ao longo de semanas ou meses. A DCJ é uma causa prototípica, porém está longe de ser a única.
Uma revisão da Nature Reviews Neurology reúne entre os diagnósticos diferenciais as encefalopatias imunomediadas, infecciosas e metabólicas, apresentações aceleradas de doenças neurodegenerativas, neoplasias e doenças priônicas. O ponto clínico decisivo é que parte dessas causas pode responder a tratamento. Por isso, a investigação deve procurar ativamente alternativas reversíveis antes de atribuir o quadro a uma doença fatal.
Essa cautela também vale para pacientes com câncer. Síndromes paraneoplásicas e encefalites autoimunes podem provocar alterações cognitivas, comportamentais, convulsões e distúrbios do movimento. A existência simultânea de uma neoplasia e de uma doença neurológica não demonstra, por si, relação causal entre elas. No caso de Lito Sousa, as informações públicas sobre câncer de próstata, inflamação cerebral e DCJ descrevem uma sequência temporal, mas não permitem estabelecer mecanismo, associação ou causalidade.
A ressonância revela um padrão, não uma resposta isolada
A ressonância magnética cerebral ocupa posição central na investigação. Nas sequências ponderadas em difusão, DWI, e nos mapas do coeficiente de difusão aparente, ADC, a DCJ pode produzir restrição de difusão no córtex, frequentemente descrita como “fita cortical”, e nos núcleos da base, sobretudo caudado e putâmen. Alterações correspondentes podem aparecer em FLAIR.
O padrão precisa ser interpretado por profissionais familiarizados com doenças priônicas e com seus simuladores. Encefalite autoimune, estado de mal epiléptico, hipóxia, distúrbios metabólicos e outras lesões podem produzir alterações de sinal que exigem correlação clínica.
Em uma validação multicêntrica com casos confirmados por autópsia, publicada no JAMA Network Open, a fita cortical apresentou sensibilidade de 67,9% e especificidade de 86,5%. O desempenho reforça seu valor, mas mostra por que uma ressonância negativa ou atípica não pode encerrar sozinha a investigação.
RT-QuIC: da lesão neuronal à atividade de semeadura priônica
O avanço laboratorial mais importante no diagnóstico em vida foi o desenvolvimento do real-time quaking-induced conversion, RT-QuIC. O ensaio parte de um princípio distinto daquele usado por biomarcadores tradicionais. Em vez de medir apenas proteínas liberadas durante a lesão neuronal, procura atividade de semeadura da proteína priônica anormal.
No teste, a amostra do paciente, geralmente líquido cefalorraquidiano, é incubada com proteína priônica recombinante em ciclos de agitação e repouso. Se houver sementes priônicas capazes de induzir conversão, formam-se agregados detectados em tempo real por fluorescência. O resultado demonstra atividade compatível com príon na amostra, dentro das condições analíticas do ensaio. Ele não mede diretamente a intensidade do dano cerebral ou a velocidade futura da doença.
Na validação multicêntrica publicada em 2022, o RT-QuIC no líquido cefalorraquidiano apresentou sensibilidade de 91,6% e especificidade de 100% no conjunto analisado. Em outra coorte, conduzida em centros da Mayo Clinic, o teste foi positivo em 93% dos pacientes avaliados que tinham DCJ provável ou definitiva.
Os números não devem ser tratados como propriedades imutáveis. O desempenho varia conforme a geração do ensaio, o subtipo molecular, o estágio clínico, a qualidade da amostra e as características da população investigada.
Um RT-QuIC positivo, diante de síndrome neuropsiquiátrica compatível, integra os critérios internacionais e os critérios do CDC para DCJ provável. Um resultado negativo não exclui a doença. Falsos negativos são descritos em alguns subtipos esporádicos de evolução mais lenta e em certas doenças priônicas genéticas. Contaminação do líquor por sangue também pode interferir no ensaio. A recomendação é interpretar o resultado em conjunto com a ressonância, a evolução clínica e os demais exames.
Proteína 14-3-3 e tau total respondem a outra pergunta
A proteína 14-3-3 e a tau total no líquido cefalorraquidiano refletem dano neuronal acelerado. Elas podem sustentar a hipótese diagnóstica em um contexto apropriado, mas não demonstram a presença do agente priônico.
A 14-3-3 pode estar elevada em encefalites, acidente vascular cerebral, crises epilépticas prolongadas, injúria hipóxica e outras condições com destruição neuronal rápida. Na coorte da Mayo Clinic, a positividade da 14-3-3 apresentou sensibilidade de 60% na avaliação inicial, enquanto a tau total acima do ponto de corte empregado no estudo alcançou 88%.
Os pontos de corte de tau são dependentes do método e da plataforma, razão pela qual valores definidos para um ensaio não devem ser transferidos automaticamente para outro.
Essa distinção tem consequência prática. RT-QuIC, 14-3-3 e tau total não são versões concorrentes do mesmo exame. O primeiro investiga semeadura priônica. Os outros registram a intensidade de um processo neurodegenerativo e ajudam a compor a probabilidade diagnóstica.
O eletroencefalograma mantém valor, com limitações
Complexos periódicos de ondas agudas no eletroencefalograma integram os critérios de suporte para DCJ provável. Entretanto, podem surgir apenas em fases mais avançadas, não aparecem em todos os subtipos e não são exclusivos da doença.
No estudo da Mayo Clinic, o padrão eletroencefalográfico considerado característico foi identificado em 16% dos pacientes na apresentação. O EEG continua útil na avaliação global, inclusive para investigar atividade epiléptica como causa ou componente do declínio rápido, mas um exame sem complexos periódicos não afasta DCJ.
Genética define formas hereditárias e exige aconselhamento
O sequenciamento de PRNP é necessário para identificar formas genéticas. A história familiar pode levantar a suspeita, mas sua ausência não elimina essa possibilidade, devido a fatores como penetrância variável, famílias pequenas, diagnósticos anteriores imprecisos e informações familiares incompletas.
Um resultado genético tem implicações que alcançam parentes biológicos. A solicitação e a comunicação devem ser acompanhadas por aconselhamento genético, com atenção ao significado da variante encontrada, à penetrância conhecida e aos limites de previsão individual.
A genética também participa da caracterização molecular da doença, junto ao polimorfismo do códon 129 de PRNP e ao tipo de proteína priônica resistente a protease identificado em tecido cerebral.
Provável em vida, definitiva no tecido
Os critérios atuais permitem reconhecer DCJ provável em vida com alto grau de confiança. Segundo o CDC, uma síndrome neuropsiquiátrica associada a RT-QuIC positivo em líquor ou outro tecido pode preencher essa classificação.
Outra via combina demência rapidamente progressiva, manifestações neurológicas características e pelo menos um exame de suporte, como EEG típico, proteína 14-3-3 no líquor ou padrão definido de ressonância, desde que a investigação de rotina não indique diagnóstico alternativo.
A classificação definitiva permanece neuropatológica. Ela depende da demonstração de alterações compatíveis e da proteína priônica patológica por métodos como imuno-histoquímica ou western blot em tecido cerebral. Essa diferença entre diagnóstico clínico provável e confirmação definitiva deve ser preservada na comunicação com pacientes, familiares e público.
O fluxo laboratorial brasileiro
No Brasil, DCJ e vDCJ são doenças de notificação compulsória desde 2005. A Nota Informativa nº 2/2025 determina que casos suspeitos sejam comunicados à vigilância epidemiológica local em até sete dias.
O documento descreve uma rede de centros colaboradores. O Instituto Evandro Chagas, no Pará, realiza exames anatomopatológicos, histopatológicos e imuno-histoquímicos. A Universidade Federal de Goiás participa com investigação molecular diferencial e sequenciamento de PRNP. O Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo realiza pesquisa de proteína 14-3-3 no líquido cefalorraquidiano por immunoblot.
O RT-QuIC, embora incorporado aos critérios internacionais de DCJ provável e amplamente reconhecido na literatura especializada, não aparece entre as metodologias disponibilizadas no fluxo público relacionado pela nota de 2025.
O contraste expõe uma questão objetiva para a medicina diagnóstica brasileira: ampliar o acesso a ensaios de semeadura priônica pode aproximar a investigação nacional do padrão diagnóstico adotado por centros internacionais. Essa ampliação exigiria validação analítica, controle externo da qualidade, capacitação, critérios de solicitação e fluxos seguros de encaminhamento.
Biossegurança sem estigma
A resistência dos príons a procedimentos convencionais de inativação exige protocolos específicos para tecidos, superfícies e instrumentos potencialmente expostos a materiais de maior infectividade, especialmente cérebro, medula espinhal e estruturas oculares. O risco ocupacional e iatrogênico deve ser administrado com avaliação prévia, rastreabilidade e procedimentos definidos pelas autoridades sanitárias.
Ao mesmo tempo, a biossegurança não deve produzir isolamento indevido. A convivência cotidiana, o cuidado habitual e o contato social não são vias reconhecidas de transmissão da DCJ esporádica. Comunicar essa diferença protege profissionais e evita estigma para pacientes e famílias.
Uma fronteira terapêutica ainda experimental
Não há tratamento aprovado capaz de interromper ou reverter a DCJ. A assistência concentra-se no controle de sintomas, na prevenção de complicações, na comunicação prognóstica e nos cuidados de suporte e paliativos.
A pesquisa atual procura reduzir a quantidade de proteína priônica disponível para a propagação patológica. O ION717, um oligonucleotídeo antissenso administrado por via intratecal, está sendo estudado em um ensaio de fase 1/2a com pessoas que apresentam doença priônica. O estudo permanece ativo, sem recrutamento de novos participantes, segundo o registro e as informações do desenvolvedor.
Outra estratégia chegou à avaliação clínica em 2026. O estudo PRiSM investiga uma molécula de RNA de interferência, siRNA, destinada a reduzir a produção da proteína priônica. A fase inicial prevê 15 participantes sintomáticos que receberão o produto e um braço observacional com outros 15 participantes. O objetivo primário é avaliar segurança, tolerabilidade, dose e sinais de atividade biológica. Não há, neste estágio, evidência de eficácia clínica.
A distinção é essencial. Pesquisa em seres humanos não equivale a tratamento comprovado, e acesso a um ensaio não garante benefício. Em uma doença de progressão tão rápida, critérios de elegibilidade, tempo desde o início dos sintomas, capacidade funcional e disponibilidade de vagas tornam-se fatores decisivos.
Diagnosticar continua sendo uma intervenção
A inexistência de terapia modificadora não reduz o valor do diagnóstico. Uma conclusão bem sustentada evita tratamentos empíricos prolongados e potencialmente nocivos, orienta a equipe assistencial, permite planejamento familiar, direciona aconselhamento genético quando necessário e ativa a vigilância epidemiológica. Também oferece uma explicação para uma deterioração que, sem resposta, tende a ser ainda mais angustiante.
O caso de uma personalidade conhecida amplia a visibilidade da doença de Creutzfeldt-Jakob. Para a medicina diagnóstica, a contribuição mais duradoura será transformar essa atenção em conhecimento preciso. Isso significa distinguir a DCJ clássica da variante zoonótica, interpretar cada biomarcador pelo fenômeno que realmente mede e reconhecer que, nas demências rapidamente progressivas, velocidade não autoriza atalhos. Ela exige método.
Referências
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