Teste genômico no câncer de mama pode evitar quimioterapia | Newslab

Teste genômico identifica pacientes que podem evitar quimioterapia no câncer de mama inicial

Estudo internacional mostra que a análise da expressão gênica tumoral pode orientar a indicação de quimioterapia em pacientes com câncer de mama inicial

Resultados do ensaio internacional OPTIMA indicam que a análise da expressão gênica do tumor pode orientar com maior precisão a indicação de quimioterapia adjuvante em pacientes com câncer de mama inicial, receptor de estrogênio positivo e HER2 negativo. A estratégia permitiu que cerca de dois terços dos participantes classificados como clinicamente de alto risco recebessem terapia endócrina sem quimioterapia, mantendo resultados oncológicos semelhantes aos obtidos com o tratamento convencional.

Apresentado durante o congresso anual da American Society of Clinical Oncology, ASCO 2026, o estudo reforça a participação do laboratório de diagnóstico molecular em uma das decisões mais delicadas da oncologia mamária. A questão deixou de ser apenas estimar o risco de recorrência. O desafio atual é identificar quais pacientes apresentam benefício clínico suficiente para justificar a toxicidade da quimioterapia.

Ensaio incluiu pacientes de maior risco clínico

O OPTIMA, sigla para Optimal Personalised Treatment of Early Breast Cancer Using Multi-parameter Analysis, é um ensaio clínico internacional, randomizado, de fase 3 e desenhado para demonstrar não inferioridade. Participaram 4.429 mulheres e homens com 40 anos ou mais, diagnosticados com câncer de mama inicial ER positivo e HER2 negativo, após tratamento cirúrgico.

Todos apresentavam características clínicas que normalmente levariam à recomendação de quimioterapia adjuvante. O protocolo admitiu pacientes com até nove linfonodos axilares comprometidos. Nos casos sem envolvimento linfonodal, o tumor deveria medir pelo menos 30 milímetros, refletindo uma população com risco clínico superior ao avaliado em grande parte dos estudos anteriores sobre assinaturas genômicas.

Os participantes foram distribuídos entre duas estratégias. No grupo controle, todos receberam quimioterapia seguida de terapia endócrina. No braço guiado pelo teste, amostras tumorais foram analisadas pelo Prosigna. Pacientes com escore de risco de recorrência, ROR, superior a 60 receberam quimioterapia e tratamento endócrino. Aqueles com resultado igual ou inferior a 60 foram tratados apenas com terapia endócrina. Radioterapia e demais intervenções permaneceram indicadas conforme os critérios assistenciais de cada caso.

Nas mulheres em pré-menopausa que não desenvolveram insuficiência ovariana relacionada ao tratamento, a terapia endócrina incluiu supressão da função ovariana. Esse aspecto é relevante porque parte do benefício atribuído à quimioterapia em pacientes mais jovens pode decorrer da redução da atividade ovariana induzida pelo tratamento.

Dois terços puderam omitir a quimioterapia

No braço orientado pelo teste, 68% dos participantes apresentaram ROR igual ou inferior a 60 e, portanto, foram tratados sem quimioterapia. Após acompanhamento mediano próximo de quatro anos, a estratégia guiada pelo perfil genômico atingiu o critério estatístico de não inferioridade estabelecido pelo protocolo para sobrevida livre de câncer de mama invasivo em cinco anos.

Na análise dos pacientes com escore baixo, os resultados permaneceram próximos entre os dois grupos. Segundo os dados divulgados pela University College London, 94,8% daqueles que receberam quimioterapia e terapia endócrina estavam vivos e sem recorrência após cinco anos. Entre os tratados somente com terapia endócrina, a proporção foi de 93,6%. A diferença absoluta de 1,2 ponto percentual permaneceu dentro da margem de não inferioridade definida previamente pelos pesquisadores.

O resultado não indica que a quimioterapia seja dispensável no câncer de mama inicial. Ele demonstra que, dentro da população estudada, o ensaio genômico conseguiu identificar um grupo no qual o benefício incremental do tratamento citotóxico foi pequeno. A análise estatística apresentada pelos investigadores estimou que, no máximo, cerca de 2% dos pacientes com escore baixo obteriam benefício adicional com a quimioterapia.

As análises de subgrupos não identificaram diferenças relevantes relacionadas ao estado menopausal ou à quantidade de linfonodos comprometidos, inclusive entre participantes com mais de três linfonodos positivos. Os pesquisadores ressaltam, contudo, que o número de homens incluídos foi insuficiente para conclusões específicas e que os resultados não podem ser extrapolados para pessoas com menos de 40 anos.

O que o teste avalia

O Prosigna é um ensaio genômico tumoral, conceito distinto dos testes genéticos utilizados para investigar predisposição hereditária ao câncer. Enquanto a avaliação germinativa procura variantes herdadas, como alterações em BRCA1 ou BRCA2, o Prosigna analisa a atividade gênica presente no tecido do próprio tumor.

Baseado na assinatura PAM50, o ensaio mede a expressão de 50 genes classificadores e utiliza genes de referência para normalização analítica. A metodologia pode ser aplicada a amostras de tecido tumoral fixadas em formalina e incluídas em parafina, material rotineiramente produzido pelos serviços de anatomia patológica.

Os dados de expressão são processados por um algoritmo que determina o subtipo molecular intrínseco do tumor e calcula o ROR. O resultado reflete características biológicas relacionadas à proliferação celular, à identidade molecular e ao risco de recorrência. O teste utiliza a plataforma nCounter, baseada em hibridização direta e contagem digital de moléculas de RNA, sem necessidade de amplificação enzimática convencional.

A possibilidade de executar o ensaio em laboratórios habilitados, desde que disponham da plataforma e dos controles necessários, diferencia essa tecnologia de exames enviados exclusivamente para centros de referência. Essa descentralização pode reduzir etapas logísticas, mas exige padronização da fase pré-analítica, seleção adequada da área tumoral, controle da qualidade do RNA, validação do método e rastreabilidade dos resultados.

Evidência amplia o alcance dos testes genômicos

Estudos anteriores já haviam demonstrado que assinaturas de expressão gênica ajudam a reduzir o uso de quimioterapia no câncer de mama luminal. No TAILORx, publicado no New England Journal of Medicine, pacientes com doença ER positiva, HER2 negativa e sem comprometimento linfonodal apresentaram eficácia semelhante com terapia endócrina isolada ou associada à quimioterapia quando o escore de 21 genes se encontrava na faixa intermediária, com ressalvas para algumas mulheres mais jovens.

O RxPONDER ampliou essa discussão para pacientes com um a três linfonodos positivos e escore de recorrência de até 25. O estudo mostrou ausência de benefício relevante da quimioterapia entre mulheres na pós-menopausa, enquanto as participantes na pré-menopausa apresentaram melhora com o tratamento combinado.

O OPTIMA avança em uma área ainda menos definida. O ensaio incluiu pacientes com até nove linfonodos comprometidos, tumores maiores e mulheres em pré-menopausa submetidas a supressão ovariana estruturada. Dessa forma, os dados sugerem que a biologia tumoral pode refinar a indicação terapêutica mesmo quando os parâmetros anatômicos tradicionais apontam para um risco elevado.

Implementação exige interpretação integrada

Os resultados do teste não devem ser avaliados de forma isolada. Diretrizes da ASCO recomendam que ensaios multigênicos sejam interpretados em conjunto com idade, estado menopausal, extensão linfonodal, tamanho e grau tumoral, expressão dos receptores hormonais, condição clínica e preferências do paciente. Esses testes não são indicados para orientar a omissão de quimioterapia em tumores HER2 positivos ou triplo-negativos.

Também será necessário acompanhar os participantes por períodos mais longos. Tumores ER positivos mantêm risco de recorrência tardia, que pode persistir por décadas após o diagnóstico. Embora o OPTIMA tenha alcançado seu objetivo estatístico na análise planejada, o acompanhamento mediano de aproximadamente quatro anos ainda representa uma janela inicial para uma doença de evolução prolongada.

Até julho de 2026, os principais resultados estavam disponíveis como apresentação e resumo científico da ASCO, além de comunicados das instituições responsáveis. A publicação integral em periódico revisado por pares permitirá avaliar com maior profundidade os desfechos secundários, os eventos adversos, a adesão à terapia endócrina e os resultados de longo prazo.

O estudo foi patrocinado pela University College London, com financiamento principal do National Institute for Health and Care Research e apoio financeiro e operacional adicional da fabricante do teste. Essa participação está declarada nas informações públicas do ensaio e deverá ser considerada na leitura crítica dos resultados.

Para a medicina laboratorial, o OPTIMA representa uma mudança concreta no uso dos biomarcadores moleculares. O laboratório deixa de fornecer apenas informações prognósticas e passa a participar diretamente da seleção terapêutica. Quando sustentada por validação analítica, evidência clínica prospectiva e interpretação multidisciplinar, a expressão gênica tumoral pode reduzir tratamentos desnecessários sem afastar a quimioterapia de quem realmente precisa dela.