A Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) iniciou a implantação de um centro de diagnóstico molecular baseado em multiômica espacial, com foco na análise de tecidos tumorais em alta resolução. A iniciativa amplia a capacidade diagnóstica ao integrar expressão gênica e proteica diretamente no contexto histológico, com implicações relevantes para a oncologia de precisão e a medicina diagnóstica.
Infraestrutura e base tecnológica
O núcleo está estruturado a partir do Laboratório Interdisciplinar de Multiômica Espacial, com investimento de aproximadamente R$ 5 milhões financiados pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP).
A plataforma tecnológica incorpora sistemas como:
- GeoMx Digital Spatial Profiler
- nCounter Analysis System
Essas tecnologias permitem quantificar simultaneamente RNA e proteínas em regiões específicas de cortes teciduais, preservando a arquitetura espacial da amostra. Na prática, isso supera limitações de métodos bulk, nos quais a heterogeneidade tumoral é diluída.
Metodologia e diferencial analítico
A abordagem central do centro baseia-se na multiômica espacial, que combina:
- Transcriptômica espacial
- Proteômica espacial
- Análise morfológica integrada
O fluxo analítico envolve:
- Seleção de regiões de interesse em lâminas histológicas
- Marcação molecular com sondas específicas
- Captura espacialmente resolvida de sinais moleculares
- Quantificação digital e análise bioinformática
Esse modelo permite correlacionar diretamente alterações moleculares com microambientes tumorais específicos, incluindo áreas de hipóxia, inflamação ou invasão.
Aplicações clínicas e impacto diagnóstico
O centro nasce com 27 projetos de pesquisa em desenvolvimento, muitos deles em colaboração com instituições como USP e ICESP, com foco em oncologia.
Entre as aplicações mais relevantes:
1. Estratificação tumoral mais precisa
A identificação de subpopulações celulares dentro do tumor permite refinar classificações diagnósticas.
2. Detecção de biomarcadores em microescala
Mesmo em amostras pequenas, é possível mapear expressão gênica e proteica com alta sensibilidade.
3. Apoio à decisão terapêutica
A correlação entre expressão molecular e localização no tecido pode orientar terapias-alvo e imunoterapia.
4. Avanço na compreensão do microambiente tumoral
A análise espacial permite entender interações entre células tumorais e estroma, um ponto crítico na progressão da doença.
Implicações para laboratórios e medicina diagnóstica
A implementação desse modelo indica um movimento claro no diagnóstico moderno:
- Integração entre patologia e biologia molecular
- Crescente adoção de tecnologias espaciais
- Necessidade de infraestrutura bioinformática robusta
- Ampliação do papel do laboratório na oncologia de precisão
Para laboratórios clínicos e centros de pesquisa, isso sinaliza uma transição de métodos puramente quantitativos para abordagens contextuais, nas quais a localização da expressão molecular passa a ter valor diagnóstico.