- Em estudo clínico, Tzield® (teplizumabe) atrasou o início do estágio sintomático e clínico do diabetes tipo 1 em 48,4 meses.
- O medicamento representa um avanço relevante na abordagem da DM1, com potencial de interferir na progressão natural da doença e contribuir para a preservação da função das células beta.
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) anunciou a aprovação de Tzield® (teplizumabe), o primeiro tratamento com potencial para modificar o curso do diabetes mellitus tipo 1 (DM1). O tratamento é indicado para retardar o início do DM1 estágio 3 em pacientes adultos e pediátricos com 8 anos de idade ou mais diagnosticados com DM1 estágio 2. A aprovação amplia as possibilidades de intervenção na doença, permitindo que pacientes nessa fase – em que os sintomas clínicos ainda não se manifestam – possam retardar a progressão para o estágio clínico.
A DM1 é uma doença autoimune, progressiva e crônica, caracterizada pela destruição, pelo próprio organismo, das células beta pancreáticas responsáveis pela produção de insulina, o que resulta em deficiência desse hormônio essencial no organismo. Pessoas com DM1 enfrentam mais de 40 fatores que influenciam o açúcar no sangue e precisam tomar aproximadamente 180 decisões conscientes e inconscientes por dia relacionadas ao manejo da doença, o que pode gerar impacto físico, emocional e prático na rotina dos pacientes e de suas famílias.
A maioria dos diagnósticos ainda ocorre de forma tardia, muitas vezes após um episódio de cetoacidose diabética (CAD), uma complicação grave que exige hospitalização de emergência. No entanto, é possível identificar a doença antes do surgimento dos sintomas clínicos por meio de exames de sangue que detectam a presença de autoanticorpos específicos e alterações nos níveis de glicose.
A progressão do diabetes tipo 1 ocorre em quatro estágios. Nos estágios 1 e 2, ainda pré-sintomáticos, esses marcadores já podem ser observados. O estágio 3 é caracterizado pela presença de hiperglicemia de início recente, que pode ou não estar associada a sintomas como sede excessiva, perda de peso, fadiga e visão turva. Já o estágio 4 corresponde ao diabetes tipo 1 de longa duração.
Tzield® atua na preservação das células beta responsáveis pela produção de insulina, retardando a progressão para o diabetes tipo 1 clínico, fase em que os sintomas se manifestam e a terapia diária com insulina passa a ser necessária.
O estudo clínico pivotal de fase 2 (TN-10) demonstrou que o Tzield retardou a progressão para o diabetes tipo 1 clínico por uma mediana de dois anos, em comparação com o placebo, em adultos e crianças com oito anos ou mais diagnosticados com diabetes tipo 1 em estágio 2. Além disso, o estudo mostrou uma redução de 59% no risco de os pacientes passarem a necessitar do uso de insulina.
Avaliação de especialista
Dra. Melanie Rodacki, endocrinologista e professora de Medicina (Diabetes e Nutrologia) na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), destaca que a possibilidade de atrasar a evolução da doença pode trazer benefícios importantes para pacientes e famílias.
“Com a possibilidade de atrasar o desenvolvimento do diabetes tipo 1 clínico, podemos oferecer às famílias um tempo para preparação, educação e adaptação a essa condição. Isso permite evitar quadros graves ao diagnóstico, o que pode ter impacto na saúde mental e no estresse emocional das famílias. Tzield® é o primeiro imunomodulador aprovado para diabetes tipo 1 e amplia as possibilidades de abordagem da doença. Passamos a atuar não apenas na reposição de insulina, mas também na evolução do processo autoimune.”
A especialista também reforça a importância da realização da dosagem de autoanticorpos para detecção de pessoas com a doença em estágio pré-clínico.
“Por ser uma doença autoimune, o diabetes tipo 1 pode ser identificado antes mesmo do surgimento dos sintomas clínicos por meio de testes simples de sangue que detectam autoanticorpos específicos do diabetes. Quando identificamos a presença de dois ou mais autoanticorpos, sabemos que o processo de ataque do organismo às células beta já começou e que a progressão para o estágio clínico é bastante provável. Com essa detecção precoce e a disponibilidade de Tzield®, podemos intervir antes de um episódio de emergência e potencialmente retardar a progressão natural da doença.”
Sobre o estudo TN-10
O estudo pivotal TN-10 de fase 2 foi um estudo randomizado, duplo-cego e controlado por placebo que avaliou o Tzield para o retardamento da progressão para o DM1 em estágio 3 em adultos e crianças com oito anos ou mais diagnosticados com DM1 em estágio 2, caracterizado pela presença de pelo menos dois autoanticorpos relacionados ao DM1 e disglicemia.
Setenta e seis participantes com idades entre oito e 45 anos foram incluídos no estudo (Tzield n=44; placebo n=32). Os participantes foram randomizados para receber um único ciclo de 14 dias de Tzield ou placebo.
O desfecho primário foi o tempo decorrido desde a randomização até o diagnóstico clínico de DM1 autoimune em estágio 3. Os principais desfechos secundários incluíram segurança e tolerabilidade.
Os resultados demonstraram que o tempo mediano até o diagnóstico de DM1 em estágio 3 foi de 48,4 meses no grupo Tzield e de 24,4 meses no grupo placebo. A doença foi diagnosticada em 19 (43%) dos participantes que receberam Tzield e em 23 (72%) dos que receberam placebo.
A razão de risco para o diagnóstico de diabetes tipo 1 foi de 0,41 (IC 95%: 0,22 a 0,78; p=0,006). Entre os eventos adversos observados estavam erupção cutânea e linfopenia transitória.
Sobre Tzield® (teplizumabe)
Tzield® (teplizumabe) é um anticorpo monoclonal direcionado à proteína CD3. O medicamento é indicado para retardar o início do diabetes tipo 1 estágio 3 em pacientes adultos e pediátricos com oito anos de idade ou mais com diabetes tipo 1 estágio 2.
O medicamento foi aprovado nos Estados Unidos em novembro de 2022 para essa indicação e posteriormente recebeu aprovação em outros mercados, incluindo União Europeia, Reino Unido, Canadá, China, Israel e países do Oriente Médio.
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