Semaglutida reduz risco cardiovascular em grande estudo clínico | Newslab

Semaglutida reduz risco de infarto e AVC em grande estudo clínico internacional

Resultados do estudo SELECT reforçam decisão da ANVISA que amplia o uso da semaglutida na prevenção cardiovascular em adultos com doença cardiovascular e obesidade ou sobrepeso

Estudo internacional aponta redução significativa de infarto e AVC com semaglutida

A ampliação do papel terapêutico da Semaglutida na prevenção cardiovascular ganhou novo respaldo científico após os resultados do estudo SELECT trial semaglutide cardiovascular outcomes, publicados na revista The Lancet. O ensaio clínico demonstrou que o medicamento pode reduzir significativamente a ocorrência de eventos cardiovasculares maiores em adultos com sobrepeso ou obesidade e doença cardiovascular estabelecida, mesmo na ausência de diabetes tipo 2.

Os achados reforçam uma mudança gradual no entendimento da relação entre metabolismo, obesidade e risco cardiovascular, tema que tem mobilizado pesquisas clínicas e novas estratégias terapêuticas na medicina preventiva.

No Brasil, a relevância desses achados ganhou novo peso após a autorização da ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) para o uso da semaglutida na redução do risco de eventos cardiovasculares em adultos com doença cardiovascular estabelecida e sobrepeso ou obesidade. A decisão amplia o papel terapêutico do medicamento, tradicionalmente utilizado no tratamento do diabetes tipo 2 e da obesidade, e fortalece a crescente importância do manejo metabólico na prevenção de infarto e acidente vascular cerebral.

Um dos maiores estudos cardiovasculares com terapias metabólicas

O SELECT foi um ensaio clínico randomizado, duplo-cego e controlado por placebo que avaliou o impacto cardiovascular da semaglutida em larga escala. O estudo envolveu 17.604 participantes, recrutados em diversos países, todos com histórico de doença cardiovascular estabelecida e índice de massa corporal igual ou superior a 27 kg/m², porém sem diagnóstico de diabetes tipo 2.

Os participantes foram acompanhados por um período médio de aproximadamente 40 meses. Durante o estudo, receberam semanalmente semaglutida na dose de 2,4 mg ou placebo, além do tratamento padrão para prevenção cardiovascular.

O desfecho primário analisado foi a ocorrência de eventos cardiovasculares adversos maiores, conhecidos na literatura como MACE, que incluem:

  • infarto do miocárdio não fatal

  • acidente vascular cerebral não fatal

  • morte por causa cardiovascular.

Redução relevante de eventos cardiovasculares

Os resultados mostraram uma redução relativa de cerca de 20% no risco de eventos cardiovasculares maiores no grupo tratado com semaglutida em comparação ao placebo.

A taxa de ocorrência de MACE foi de aproximadamente 6,5% no grupo semaglutida, contra 8,0% no grupo placebo, diferença considerada estatisticamente significativa.

Além da redução de eventos cardiovasculares, os participantes tratados com o medicamento também apresentaram:

  • perda de peso média significativa ao longo do acompanhamento

  • melhora de parâmetros metabólicos

  • redução de marcadores associados ao risco cardiometabólico.

Segundo os autores do estudo, os resultados indicam que os benefícios cardiovasculares da terapia não se limitam apenas à redução do peso corporal, sugerindo mecanismos adicionais relacionados à melhora do metabolismo e da função vascular.

A conexão entre metabolismo e doença cardiovascular

A relação entre obesidade, resistência à insulina, inflamação crônica e aterosclerose tem sido amplamente investigada nas últimas décadas. A evidência acumulada aponta que o excesso de tecido adiposo e a disfunção metabólica desempenham papel central no desenvolvimento e na progressão das doenças cardiovasculares.

Nesse contexto, medicamentos agonistas do receptor de GLP-1, classe farmacológica da semaglutida, passaram a receber crescente atenção por seus efeitos metabólicos amplos.

Esses fármacos atuam em múltiplos mecanismos fisiológicos, incluindo:

  • regulação do apetite

  • controle glicêmico

  • redução da inflamação metabólica

  • melhora da função endotelial.

Esses efeitos podem contribuir para a redução do risco cardiovascular em pacientes com obesidade ou síndrome metabólica.

Implicações para a prática clínica

Os resultados do SELECT ampliam a discussão sobre o papel das terapias metabólicas na prevenção cardiovascular, particularmente em indivíduos com excesso de peso e doença cardiovascular pré-existente.

Historicamente, o tratamento cardiovascular concentrou-se em fatores como colesterol, pressão arterial e controle glicêmico. Estudos recentes indicam que a abordagem metabólica pode representar um componente adicional importante na estratégia de prevenção.

Para especialistas, os achados sugerem que intervenções direcionadas ao metabolismo podem contribuir para reduzir a incidência de eventos cardiovasculares graves em populações de alto risco.

Um novo eixo na medicina preventiva

As doenças cardiovasculares continuam sendo a principal causa de morte no mundo. No Brasil, infarto e acidente vascular cerebral representam parcela significativa da mortalidade associada a doenças crônicas não transmissíveis.

Nesse cenário, o avanço de terapias baseadas em evidência científica que atuam sobre o metabolismo amplia as possibilidades de prevenção e manejo clínico do risco cardiovascular.

Os resultados do SELECT reforçam a crescente integração entre cardiologia, endocrinologia e medicina metabólica, apontando para uma abordagem mais abrangente do risco cardiovascular, na qual fatores metabólicos passam a ocupar posição central na prática clínica contemporânea.