Resistência antimicrobiana e diagnóstico rápido na saúde | Newslab

O diagnóstico é a primeira linha de defesa para driblar a resistência bacteriana

por Guilherme Ambar, biólogo, CEO da Seegene Brasil e diretor de Inovação da CBDL

A resistência antimicrobiana já é reconhecida como uma das maiores ameaças globais à saúde pública. Infecções que antes eram tratadas com relativa facilidade tornam-se progressivamente mais difíceis de controlar, elevando taxas de complicações, tempo de internação e mortalidade. O fenômeno não representa apenas um desafio médico, mas também econômico e estrutural para os sistemas de saúde, afinal em todo o mundo são registradas, por ano, 5 milhões de mortes relacionadas ao problema.

Embora o debate frequentemente se concentre no uso excessivo de antibióticos, o enfrentamento da resistência exige uma abordagem mais ampla. O novo documento de posicionamento da Câmara Brasileira de Diagnóstico Laboratorial (CBDL), que acaba de ser publicado, destaca um ponto essencial e ainda subestimado: o acesso ao diagnóstico rápido e preciso tem que ocupar posição central nas estratégias de combate à resistência antimicrobiana.

Na prática clínica, especialmente em situações graves, médicos muitas vezes precisam iniciar o tratamento antes da confirmação laboratorial do agente infeccioso. Esse modelo, conhecido como terapia empírica, é frequentemente necessário para preservar vidas. No entanto, quando se torna regra, e não exceção, contribui para o uso ampliado de antibióticos de amplo espectro, favorecendo o surgimento de microrganismos resistentes.

A dificuldade está no tempo necessário para identificar o patógeno responsável pela infecção. Métodos tradicionais podem levar dias até a confirmação diagnóstica, período em que decisões terapêuticas são tomadas com base em probabilidades clínicas. Esse intervalo representa uma janela crítica. Quanto maior o atraso na identificação correta do agente infeccioso, maior a chance de tratamentos inadequados, piora clínica e seleção de bactérias resistentes.

O posicionamento da CBDL reforça que o diagnóstico laboratorial deve ser compreendido como parte estratégica da assistência em saúde, e não apenas como etapa complementar. Avanços tecnológicos recentes permitem identificar patógenos e marcadores genéticos de resistência em poucas horas por meio de métodos moleculares e plataformas automatizadas. Essa capacidade transforma o manejo clínico ao possibilitar terapias direcionadas mais rapidamente, reduzindo o uso desnecessário de antibióticos e melhorando os desfechos dos pacientes.

Além do benefício individual, o diagnóstico rápido tem impacto coletivo. Dados laboratoriais estruturados fortalecem sistemas de vigilância epidemiológica, permitindo monitorar padrões de resistência, detectar surtos precocemente e orientar políticas públicas baseadas em evidências. Mesmo assim, o acesso ainda é desigual. Em muitos contextos, limitações estruturais e regulatórias dificultam a incorporação plena dessas tecnologias, criando um descompasso entre inovação disponível e prática assistencial.

Outro aspecto destacado pelo documento da CBDL é a relação direta entre diagnóstico e preparação para emergências sanitárias. A pandemia de COVID-19 evidenciou que sistemas diagnósticos robustos são fundamentais para respostas rápidas e coordenadas. A resistência antimicrobiana segue lógica semelhante, mas de forma silenciosa e contínua. Sem monitoramento laboratorial consistente, novos padrões de resistência podem se disseminar antes mesmo de serem percebidos pelos sistemas de saúde. O fortalecimento da capacidade diagnóstica amplia a visibilidade epidemiológica e permite intervenções mais precoces, reduzindo impactos clínicos e econômicos.

O Brasil reúne condições relevantes para avançar nesse cenário, incluindo expertise científica, rede laboratorial consolidada e crescente capacidade de inovação tecnológica. No entanto, o documento da CBDL aponta a necessidade de políticas que ampliem o acesso ao diagnóstico, incentivem a produção local e integrem dados laboratoriais aos sistemas de informação em saúde. Tratar o diagnóstico como investimento, e não apenas custo assistencial, pode gerar ganhos expressivos ao reduzir internações prolongadas, evitar terapias inadequadas e preservar a eficácia dos antimicrobianos disponíveis. A integração entre setor público, indústria, academia e serviços de saúde surge como elemento-chave para acelerar essa transformação.

Historicamente, o enfrentamento da resistência antimicrobiana concentrou-se na busca por novos antibióticos. Embora essa estratégia permaneça importante, ela não é suficiente isoladamente. O desenvolvimento de novos medicamentos não acompanha a velocidade com que microrganismos desenvolvem resistência. O caminho mais sustentável passa pelo uso mais racional das terapias existentes, e isso depende da capacidade de identificar corretamente o agente infeccioso desde o início do cuidado. Fortalecer o diagnóstico é, portanto, fortalecer toda a cadeia de cuidado em saúde, protegendo pacientes, preservando medicamentos essenciais e contribuindo para a sustentabilidade dos sistemas de saúde.