A Fundação do Câncer publicou nova versão do Guia Prático de Prevenção do Câncer de Colo do Útero, com orientações que consolidam a transição do método tradicional de rastreamento baseado na citologia (Papanicolau) para o teste molecular de DNA-HPV, destinado a ampliar a detecção precoce e reduzir a incidência da doença no país. A atualização integra as ações do Janeiro Verde, mês dedicado à conscientização e prevenção desse tipo de câncer, que representa um importante desafio de saúde pública em território nacional.
Tendência técnica global com foco na sensibilidade diagnóstica
O teste de DNA-HPV distingue-se por detectar diretamente a presença dos tipos de HPV oncogênicos, responsáveis pela maioria dos casos de câncer de colo do útero, antecipando o risco antes mesmo de alterações celulares significativas surgirem. Essa capacidade contrasta com o Papanicolau, que identifica apenas alterações celulares já estabelecidas no epitélio cervical. Com maior sensibilidade e especificidade, o teste molecular pode estender o intervalo de rastreamento para até cinco anos em casos de resultados negativos, reduzindo a frequência de exames sem comprometer a segurança diagnóstica.
A incorporação do teste de DNA-HPV no Sistema Único de Saúde (SUS) teve início em 2024 e está sendo implementada de forma progressiva em municípios selecionados de 12 estados brasileiros. Onde a tecnologia ainda não está disponível, o rastreamento com Papanicolau permanece em vigor, assegurando continuidade e cobertura dos serviços de saúde.
Diretrizes atualizadas e integração com práticas clínicas
A nova edição do guia incorpora as recomendações das Diretrizes Brasileiras para o Rastreamento do Câncer do Colo do Útero, aprovadas pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (CONITEC), que oficializam a transição gradual para o método molecular. Essas diretrizes alinhadas às práticas internacionais recomendam o uso organizado de testes de DNA-HPV como principal estratégia de rastreamento, com periodicidade ajustada conforme o resultado obtido.
No panorama clínico, o público-alvo do rastreamento segue sendo mulheres entre 25 e 64 anos de idade, faixa etária considerada de maior relevância epidemiológica para o desenvolvimento da doença. Enquanto o Papanicolau exigia repetições anuais nos primeiros dois exames negativos e posteriormente a cada três anos, o teste de DNA-HPV permite um intervalo maior com base em sua elevada sensibilidade.
Impacto clínico e ação integrada de prevenção
O novo guia enfatiza que a eficácia da prevenção do câncer de colo do útero não depende apenas da substituição do método de rastreio, mas da estruturação articulada de toda a rede de cuidado. Isso envolve não apenas a implementação técnica do teste de DNA-HPV, mas também a garantia de capacidade diagnóstica (como colposcopia e exame histopatológico), continuidade do tratamento e adesão à vacinação contra o HPV.
Adicionalmente, o Brasil está alinhado à Estratégia Global da Organização Mundial da Saúde para a Eliminação do Câncer do Colo do Útero, que estabelece metas até 2030 para cobertura vacinal ampla, rastreamento efetivo com teste molecular e tratamento adequado dos casos diagnosticados. Essas metas reforçam a necessidade de abordagens integradas entre serviços de saúde, políticas públicas e educação em saúde, com foco em maximizar os benefícios clínicos e reduzir a mortalidade associada à neoplasia.
Considerações finais
A adoção do teste de DNA-HPV como principal ferramenta de rastreamento representa um marco na modernização das práticas de prevenção do câncer de colo do útero no Brasil, refletindo evidências científicas atuais e experiências internacionais de sucesso. A transição gradual prevista no SUS busca equilibrar cobertura, efetividade clínica e sustentabilidade operacional, ampliando a capacidade de detecção precoce e contribuindo para a redução de casos avançados.


