Quando Não é Autismo e Sim Ehlers Danlos: O Diagnóstico que Pode Estar Passando Despercebido | Newslab

Quando Não é Autismo e Sim Ehlers Danlos: O Diagnóstico que Pode Estar Passando Despercebido

A SED é um distúrbio do tecido conjuntivo que vai muito além da "flexibilidade excessiva" que muitos associam à condição.

Quantas vezes você já ouviu falar de alguém que “parece autista” mas algo não fecha completamente no diagnóstico? Ou de crianças e adultos com comportamentos repetitivos, dificuldades sociais e sensibilidades sensoriais que não se encaixam perfeitamente no espectro autista clássico?

A resposta pode estar em uma condição que poucos conhecem, mas que afeta mais pessoas do que imaginamos: a Síndrome de Ehlers-Danlos (SED).

O Diagnóstico Confuso

A SED é um distúrbio do tecido conjuntivo que vai muito além da “flexibilidade excessiva” que muitos associam à condição. Ela afeta todo o corpo – articulações, pele, vasos sanguíneos, órgãos internos – e, surpreendentemente, pode produzir comportamentos que parecem autísticos.

Segundo pesquisas recentes, até 39% das pessoas com autismo também apresentam características da SED (Baeza-Velasco et al., 2025). Mas aqui está o ponto crucial: nem toda pessoa com comportamentos “autísticos” tem autismo.

Quando o Corpo Fala Através do Comportamento

Imagine viver com dor crônica, fadiga constante e uma sensação de que seu corpo não está “conectado” adequadamente. Como você reagiria?

Provavelmente desenvolveria estratégias para lidar com essas sensações. Talvez evitasse multidões (muito cansativo), desenvolvesse rotinas rígidas (para conservar energia), ou fizesse movimentos repetitivos (para se autorregular sensorialmente).

Esses comportamentos podem parecer autísticos, mas na verdade são respostas inteligentes do cérebro às disfunções físicas causadas pela SED.

As Pistas que Passam Despercebidas

Diferentemente do autismo clássico, os “traços autísticos” na SED geralmente vêm acompanhados de:

– Hipermobilidade articular (aquela flexibilidade “impressionante”)

– Dor musculoesquelética crônica

– Fadiga desproporcional ao esforço

– Problemas digestivos frequentes

– Tonturas ou desmaios

– Pele mais elástica ou frágil

Quando esses sinais físicos estão presentes junto com comportamentos “autísticos”, vale a pena investigar a SED.

Por Que Isso Importa?

O diagnóstico correto muda tudo. Uma criança com SED que recebe terapias para autismo pode não melhorar significativamente porque o problema não está no neurodesenvolvimento, mas no tecido conjuntivo.

Por outro lado, quando tratamos adequadamente a SED – com fisioterapia, manejo da dor, suporte articular – frequentemente vemos uma melhora dramática nos comportamentos “autísticos”.

O Olhar Clínico Diferenciado

Como profissionais de saúde, precisamos ampliar nosso olhar. Nem todo comportamento repetitivo é estereotipia autística. Nem toda dificuldade social é déficit de comunicação. Às vezes, é simplesmente uma pessoa tentando navegar pelo mundo com um corpo que funciona de forma diferente.

A pesquisa de Casanova et al. (2020) sugere que a SED pode até representar um “subtipo” específico dentro do espectro autista, tamanha é a sobreposição. Mas a distinção importa para o tratamento.

Uma Nova Perspectiva

Não se trata de diminuir a importância do diagnóstico de autismo ou questionar diagnósticos já estabelecidos. Trata-se de reconhecer que comportamentos similares podem ter origens diferentes.

Para famílias que lutam há anos com diagnósticos que “não fecham completamente”, a SED pode ser a peça que faltava no quebra-cabeças.

O Caminho à Frente

Se você reconhece essas características em si mesmo ou em alguém próximo, vale a pena conversar com um profissional familiarizado com a SED. O diagnóstico pode ser desafiador – muitos médicos ainda não conhecem bem a condição – mas a diferença no tratamento e na qualidade de vida pode ser transformadora.

Afinal, quando entendemos a verdadeira causa dos comportamentos, podemos finalmente tratá-los de forma eficaz.

Baseado em evidências científicas de Baeza-Velasco et al. (2025), Casanova et al. (2020), e outros estudos recentes sobre a relação entre Síndrome de Ehlers-Danlos e características autísticas.