Reino Unido alerta sobre pancreatite e canetas emagrecedoras | Newslab

Reino Unido reforça alerta sobre pancreatite associada a medicamentos injetáveis para controle de peso

Autoridade regulatória britânica destaca que eventos são raros, mas requerem reconhecimento precoce, suspensão imediata do tratamento e monitoramento rigoroso

O avanço acelerado dos medicamentos injetáveis utilizados no tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2 transformou a prática clínica global na última década. Paralelamente aos benefícios metabólicos amplamente documentados, cresce a atenção regulatória para eventos adversos raros, porém potencialmente graves, associados a essa classe terapêutica.

Nesse contexto, a Agência Reguladora de Medicamentos e Produtos de Saúde do Reino Unido (MHRA) publicou um alerta reforçando advertências de segurança sobre o risco de pancreatite aguda relacionada ao uso de agonistas do receptor de GLP-1 e de agonistas duais GLP-1/GIP. A orientação vale para todos os produtos aprovados na classe, incluindo aqueles utilizados com finalidade de emagrecimento e controle glicêmico.

Segundo a agência, pacientes e profissionais de saúde devem estar atentos a sintomas compatíveis com inflamação pancreática, como dor abdominal intensa e persistente, frequentemente irradiando para as costas, acompanhada ou não de náuseas e vômitos. Na suspeita clínica, o medicamento deve ser imediatamente interrompido, e não deve ser reiniciado caso o diagnóstico de pancreatite seja confirmado.

Um sinal conhecido, mas constantemente monitorado

As notificações de pancreatite associadas a essa classe farmacológica vêm sendo registradas no sistema de farmacovigilância britânico desde 2007, período que coincide com a introdução dos primeiros agonistas de GLP-1 no tratamento do diabetes tipo 2, como a exenatida. À época, esses medicamentos não eram indicados para emagrecimento.

Os fármacos atualmente mais conhecidos pelo uso no controle de peso, como semaglutida e tirzepatida, foram desenvolvidos e aprovados anos depois, a partir de 2017, com ampliação progressiva de suas indicações clínicas.

Assim, os dados históricos apresentados pelas autoridades refletem o acúmulo de experiência de segurança da classe terapêutica como um todo, e não exclusivamente das canetas emagrecedoras modernas.

Até outubro de 2025, mais de 1,2 mil notificações de pancreatite foram registradas no Reino Unido em associação a medicamentos desse grupo, incluindo relatos raros de formas necrosantes e fatais. Apesar disso, a MHRA enfatiza que o risco absoluto permanece baixo quando considerado o volume total de prescrições e dispensações, estimado em dezenas de milhões de unidades ao longo do período.

Evidências clínicas e contexto científico

Estudos clínicos randomizados e grandes análises observacionais publicados ao longo dos últimos anos não demonstraram aumento consistente e estatisticamente significativo da incidência de pancreatite entre usuários de agonistas de GLP-1 em comparação com grupos controle. Ainda assim, sinais de farmacovigilância continuam sendo acompanhados, especialmente porque pacientes com obesidade e diabetes frequentemente apresentam fatores de risco independentes para doenças pancreáticas.

Especialistas ressaltam que a ocorrência de pancreatite nesses contextos pode resultar da interação entre múltiplos elementos, incluindo histórico prévio de doença pancreática, consumo de álcool, hipertrigliceridemia, cálculos biliares e condições metabólicas associadas.

Por esse motivo, a relação entre os medicamentos e o evento adverso é classificada como um risco potencial reconhecido, e não como uma causalidade direta universal.

Recomendações práticas para profissionais e pacientes

A MHRA orienta que médicos, farmacêuticos e equipes multiprofissionais:

  • Avaliem histórico pancreático antes de iniciar a terapia.

  • Informem claramente os pacientes sobre sintomas de alerta.

  • Interrompam o medicamento imediatamente na suspeita de pancreatite.

  • Reportem eventos adversos aos sistemas nacionais de farmacovigilância.

Para os usuários, a recomendação é procurar atendimento médico imediato diante de dor abdominal intensa e persistente, evitando a continuidade da aplicação até avaliação clínica.

Benefícios consolidados, uso responsável

Os agonistas de GLP-1 e os agonistas duais GLP-1/GIP permanecem entre as inovações terapêuticas mais relevantes da endocrinologia moderna, com benefícios robustos no controle glicêmico, redução ponderal e, em determinados perfis de pacientes, diminuição de risco cardiovascular.

O alerta das autoridades britânicas não representa uma restrição de uso, mas sim um reforço das boas práticas de prescrição, monitoramento e educação do paciente, o que é essencial para que terapias inovadoras sejam utilizadas de forma segura, com permanente de vigilância clínica, transparência regulatória e acompanhamento individualizado.