A ciência do Alzheimer acaba de ganhar uma nova lente através da qual compreender a perda de memória, um dos sintomas mais devastadores da doença que afeta milhões de pessoas no mundo. Uma equipe liderada pelo Wu Tsai Neurosciences Institute da Stanford University revelou que um único receptor molecular pode ser responsável por sinalizar aos neurônios que eliminem as próprias conexões, um processo que poderia explicar como o cérebro aparentemente se “autoengana” ao descartar memórias essenciais.
Publicado no periódico Proceedings of the National Academy of Sciences, o estudo conduzido por Carla Shatz e colaboradores demonstra que tanto a proteína tóxica beta-amiloide quanto sinais de inflamação cerebral convergem sobre o receptor conhecido como LilrB2, ativando um mecanismo de poda sináptica exagerada que compromete a comunicação entre neurônios.
Durante o desenvolvimento e ao longo da vida adulta, a poda sináptica é um processo natural que ajuda a refinar as redes neurais. No entanto, no contexto do Alzheimer, esse mecanismo pode ser sequestrado por sinais biológicos adversos. A equipe identificou a proteína C4d, um componente da resposta inflamatória, como um ligante de alta afinidade para o receptor LilrB2, capaz de induzir a perda de conexões entre neurônios em modelos animais.
Os pesquisadores realizaram experimentos em que a infusão de C4d no cérebro de camundongos saudáveis resultou em perda significativa de sinapses, sugerindo que a inflamação não é apenas um marcador da doença, mas um agente ativo na destruição das conexões que sustentam a memória.
Este achado desafia a visão predominante de que as células gliais, principalmente, seriam responsáveis por remover conexões neurais no Alzheimer. A nova evidência mostra que os próprios neurônios respondem diretamente aos sinais de perigo, participando ativamente da própria desestruturação sináptica.
As implicações para tratamentos são significativas. As terapias atuais aprovadas pela FDA focam em reduzir placas de beta-amiloide, com benefícios clínicos limitados e riscos notáveis, como hemorragias cerebrais. A descoberta de um caminho unificado que conecta processos tóxicos e inflamatórios ao receptor LilrB2 sugere que medicamentos capazes de bloquear esta via poderiam proteger as sinapses e, por consequência, a memória.
Segundo Shatz, “quebrar placas de amiloide sozinho não resolve o quadro completo; precisamos proteger diretamente as conexões que sustentam o pensamento e a memória”. Esta abordagem renovada pode impulsionar o desenvolvimento de terapias mais eficazes e com menos efeitos adversos do que as estratégias atuais.
O estudo recebeu financiamento de várias instituições, incluindo o National Institutes of Health e o Phil and Penny Knight Initiative for Brain Resilience, e utilizou amostras de tecido cerebral humano provenientes do Neurodegenerative Disease Brain Bank da University of California, San Francisco, para reforçar a relevância clínica dos achados.
Este avanço científico traz uma compreensão mais integrada dos mecanismos biológicos por trás do Alzheimer e representa um passo promissor rumo a terapias que preservem a função cerebral, não apenas diminuindo os marcadores da doença, mas protegendo ativamente as redes que nos tornam quem somos.


