A SBEM, SBPC/ML (Sociedade Brasileira de Patologia Clínica Medicina Laboratorial) e o Colégio Brasileiro de Radiologia e Diagnóstico por Imagem lançaram um posicionamento conjunto de medicina diagnóstica inclusiva para o cuidado de pacientes transgêneros.
O documento contou com a coordenação da patologista clínica, Dra. Luisane Maria Falci Vieira (SBPC/ML); endocrinologistas – Dra. Elaine Frade Costa (SBEM), Dra. Karen De Marca (SBEM), Dra. Maria Izabel Chiamolera (SBEM) e Dr. Marcelo Cidade Batista (SBEM e SBPC/ML); o médico radiologista, Dr. Valdair Francisco Muglia (CBR); e Dr. Caio de Azevedo Trindade (advogado). Os presidentes das três Sociedades – Dr. Rodrigo Moreira (SBEM), Dr. Wilson Shcolnik (SBPC/ML) e Dr. Alair Augusto dos Santos (CBR) – assinam o documento.
O Posicionamento que pode ser baixado gratuitamente no link a seguir
Segundo dados apresentados pela Dra. Maria Izabel, durante um simpósio no Congresso da SBPC/ML, no Rio de Janeiro, existem cerca de 1 a 1.4 milhões de transgêneros nos Estados Unidos. Um dado que a endocrinologista acredita que já estar subestimado.
A Dra. Luisane explicou, também, que ainda não há um dado oficial sobre o número de transgêneros no Brasil, mas de acordo com estudo, realizado pela revista The Lancet, estima-se que existem no país entre 752 mil e 2,4 milhões de indivíduos que se identificam com um gênero diferente daquele que corresponde ao seu sexo atribuído no momento do nascimento. Apenas 11 cidades no país possuem ambulatórios especializados para este grupo.
Dentro do simpósio, onde aconteceu o lançamento, a Dra. Maria Izabel destacou dez pontos que precisam de atenção no atendimento de pacientes transgêneros:
- Entender a diferença entre gênero, sexo e sexualidade,
- Clínicos dever ser parte de um time,
- Realizar a história e exame físico completo,
- Tratamento Hormonal para mulheres trans,
- Realizar testes laboratoriais de acompanhamento para mulheres trans,
- Tratamento Hormonal para homens trans,
- Realizar testes laboratoriais de acompanhamento para homens trans,
- Ter a opção cirúrgica,
- Avaliar prevenção de lesões em órgãos existentes,
- Aspectos legais e sociais.
A Dra. Maria Izabel lembrou que o termo transexual não é novo e é utilizado desde o início do século passado (Anos 20). O termo transexual foi amplamente conhecido após a descrição por Harry Benjamin e, depois, Magnus Hirschfeld cunhou a terminologia em 1923, para descrever pessoas que querem viver uma vida que corresponde ao seu gênero de identidade. “No Brasil, o assunto também não é recente. Em 1971, foi feita a primeira cirurgia na Escola Paulista de Medicina, pelo Dr. Roberto Farina que teve a carreira prejudicada após o fato”, contou a especialista.
O Posicionamento
Segundo a coordenadora da iniciativa, Luisane Vieira, o posicionamento aborda o panorama técnico, define intervalos de referência específicos para pessoas trans em tratamento endócrino, tecnológico. “As mudanças servem para viabilizar ferramentas e sistemas flexíveis para cadastro e permissão de exames específicos, que são vinculados a determinado sexo, até o panorama social, como a implementação de banheiros neutros quanto a gênero nas unidades de atendimento e inclusão do nome social em todos os contatos com o paciente”.
A Dra. Karen, endocrinologista da equipe do Instituto Estadual de Diabetes e Endocrinologia, foi uma das colaboradoras na revisão do documento. A participação da médica foi baseada na experiência do trabalho realizado no IEDE, no atendimento dos pacientes transgêneros. “Entre os desafios estava a questão do nome no título do exame. Nas anotações dos exames não havia campo para a inclusão do nome social. Só existia o campo de identificação civil, o qual eles não se identificam mais”, explica a Dra. Karen.

Diretoria ASSEP
A situação se estende no momento de solicitação de exames, por estarem com os nomes de acordo com sexo de nascimento e não de identificação. Os valores de referência eram colocados de acordo com o sexo biológico, atrapalhando o acompanhamento da terapia hormonal cruzada. Também ocorrem problemas nos exames de imagens, chamando o paciente pelo nome civil, causando muito constrangimento aos pacientes. “Vários não têm útero, mas a aparência é feminina. Esses desafios só são observados por quem lida diariamente, entende e compreende as dificuldades. No IEDE temos nossas rotinas que são semelhantes a diversos serviços, inclusive as da Endocrine Society”. São mais de 500 pacientes atendidos atualmente no IEDE.
A Dra. Elaine Frade foi a representante da SBEM Nacional na produção do conteúdo do documento, que foi elaborado em um curto espaço de tempo e que, segundo ela, pode ter atualizações.
Adequações de Gênero
Na abertura do documento, as Sociedades Científicas esclarecem que em todas as partes do mundo pessoas trans vem sofrendo discriminação e é preciso mudar esse conceito.
“A masculinidade e a feminilidade não precisa ser silos distintos, em constante competição, mas esperamos que um dia se fundam, em constante colaboração. Essa publicação visa contribuir positivamente para a qualidade do apoio médico para todas as pessoas, de quaisquer gêneros” – SBEM, SBPC/ML e CBR.
Com informações de SBEM.