Por: Dr. Fabiano de Abreu Agrela Rodrigues – pós-PhD em Neurociências, especialista em Genômica e Bioinformática.
A cena é clássica e repete-se em milhares de lares: a criança fecha a boca, empurra o prato e recusa terminantemente o alimento. Para pais exaustos a conclusão costuma ser imediata e resume-se a “frescura”, “teimosia” ou “fase comportamental”. No entanto essa leitura simplificada ignora um dado central da medicina contemporânea e da neurobiologia evolutiva que nos ensina que o corpo, sobretudo em fases precoces do desenvolvimento, responde antes da consciência racional. A rejeição pode não ser um ato de rebeldia, mas um marcador biológico de vulnerabilidade.
Como neurocientista e especialista em genômica afirmo que o organismo não rejeita sem motivo. Ele aprende, por vias neuroquímicas e sensoriais complexas, o que lhe causa desequilíbrio. Do ponto de vista biológico essa resposta envolve o eixo intestino–cérebro, uma via de mão dupla mediada pelo nervo vago e por neurotransmissores como a serotonina e a dopamina, que criam a associação imediata entre o alimento e a sensação de perigo ou bem-estar.
A literatura médica e nutricional moderna, apoiada por dados genéticos, sustenta que a recusa alimentar é frequentemente um sinal de alerta fisiológico. Um dos fatores principais reside nas predisposições genéticas a intolerâncias não alérgicas. Nem toda a rejeição ao glúten ou à lactose se manifesta como uma alergia clássica com sinais visíveis. Polimorfismos em genes como o HLA ou LCT podem gerar desconfortos subclínicos, inflamação de baixo grau ou “nevoeiro mental”. A criança evita o alimento porque o seu cérebro, num nível instintivo, associa a ingestão àquele mal-estar sistêmico que ela ainda não sabe verbalizar.
Outro ponto frequentemente ignorado é a questão mecânica ligada à hipermobilidade. Crianças com variações genéticas que afetam o colágeno e a elasticidade dos tecidos podem apresentar flacidez na musculatura do esôfago e da orofaringe. Para elas o ato de engolir certas texturas exige um esforço motor desproporcional ou gera a sensação iminente de engasgo, transformando a refeição num momento de ansiedade e autoproteção, não de prazer.
Existe ainda a barreira sensorial. Perfis neurogenéticos específicos apresentam uma hiperatividade em áreas cerebrais como o córtex insular, tornando-os “super-tasters”. Variantes no gene TAS2R38, por exemplo, podem fazer com que vegetais escuros tenham um sabor insuportavelmente amargo, ativando circuitos antigos de defesa contra venenos. O que para um adulto é apenas um brócolis, para essa criança é um sinal químico de toxicidade que o seu cérebro evolutivo ordena rejeitar.
Diante deste cenário o GIP (Genetic Intelligence Project) surge não como uma ferramenta de diagnóstico de doenças, mas como um mapa de navegação para uma parentalidade consciente. Ao analisarmos os dados genéticos de uma criança podemos identificar se aquela recusa é comportamental ou se existe uma base metabólica, sensorial ou mecânica para o problema.
A proposta é mudar o paradigma do “corrigir” para o “compreender”. Quando a rejeição alimentar é persistente e acompanhada de sinais sutis como distensão abdominal, alterações na pele, sono agitado ou fadiga, a orientação é clara: pare de insistir e comece a investigar. O comportamento “difícil” à mesa pode ser apenas o primeiro sintoma visível de um desequilíbrio invisível que, se respeitado e tratado, abre portas para um desenvolvimento muito mais saudável e tranquilo.



