Diagnóstico molecular com tiras descartáveis avança em pesquisa | Newslab

Novo teste de tiras descartáveis promete transformar diagnóstico de doenças precoces, incluindo câncer

Tecnologia desenvolvida por pesquisadores australianos detecta microRNAs em níveis ultrabaixos sem necessidade de laboratório complexo, abrindo caminho para diagnósticos mais rápidos e acessíveis

Detecção precoce é um dos principais fatores para o sucesso no tratamento de doenças graves, especialmente câncer, porém muitos sinais biológicos importantes circulam no sangue em concentrações tão baixas que escapam aos métodos diagnósticos tradicionais. Entre esses sinais estão os microRNAs, pequenas moléculas ligadas a processos celulares que se tornam indicadores promissores de alterações fisiológicas, mas que até agora eram difíceis de medir de forma simples e sensível.

Uma equipe de pesquisadores da La Trobe University, instituição de pesquisa sediada em Victoria, Austrália desenvolveu um novo tipo de tira de teste descartável que promete superar esse desafio. Inspirada na simplicidade de tiras utilizadas para monitorar glicose, a tecnologia emprega um biossensor com leitura eletroquímica capaz de registrar pequenas variações elétricas quando microRNAs presentes na amostra se ligam à superfície do sensor.

O diferencial está na utilização de uma enzima especializada que amplifica de forma significativa essas mudanças elétricas, permitindo que o dispositivo identifique microRNAs em concentrações extremamente baixas, até um trilhão de vezes menores que os níveis de glicose detectáveis em tiras convencionais. Essa sensibilidade eleva a tecnologia acima de muitas abordagens tradicionais e aproxima a detecção de biomarcadores de um contexto real de ponto de cuidado.

Publicado na revista Small, o estudo detalha que o protótipo foi validado com amostras de plasma sanguíneo, mostrando capacidade de detectar microRNAs em níveis até mil vezes inferiores aos alcançados por tecnologias semelhantes. O uso de amplificação enzimática demonstrou ser robusto e reprodutível, o que sinaliza um avanço significativo frente aos métodos padrão como a reação em cadeia da polimerase (PCR).

Especialistas envolvidos no projeto destacam que essa tecnologia pode mudar a forma como realizamos diagnósticos, pois não depende de infraestrutura laboratorial sofisticada nem de pessoal altamente treinado. Com isso, abre-se a possibilidade de uso em cenários clínicos variados, de centros de saúde a unidades móveis, facilitando o rastreamento de doenças em fases iniciais e o monitoramento da resposta a tratamentos.

Os pesquisadores vislumbram aplicações futuras que vão além de câncer, incluindo outras condições em que microRNAs desempenham papel crítico. O foco agora é expandir o leque de alvos detectáveis e avançar na integração da tecnologia em dispositivos portáteis que possam ser usados rotineiramente por profissionais de saúde e eventualmente pelo próprio paciente.

Além de representar uma ruptura com o modelo laboratorial tradicional, esse avanço reforça o papel do laboratório como núcleo da inovação diagnóstica. Tecnologias como essa, ainda em fase de pesquisa e validação, nascem do rigor científico, da expertise analítica e da capacidade técnica que são inerentes ao ambiente laboratorial.

No futuro, sua incorporação ao cuidado em saúde tende a ocorrer de forma complementar, ampliando estratégias de triagem, pesquisa e monitoramento, sempre ancoradas em validação, controle de qualidade e interpretação clínica especializada. Nesse contexto, o laboratório consolida-se como agente central na tradução da inovação científica em diagnóstico confiável e clinicamente relevante.