Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) identificou uma redução significativa de células do sistema imunológico em pacientes com mielofibrose (tipo raro de câncer hematológico), especialmente entre aqueles com manifestações clínicas mais graves da doença. A pesquisa analisou células mieloides inatas no sangue periférico e mostrou que a diminuição das chamadas células dendríticas, em especial as plasmocitoides, está associada a anemia, aumento do baço e graus mais avançados de fibrose na medula óssea. Os resultados indicam que essas células podem se tornar marcadores importantes da progressão da doença.
O estudo avaliou 21 pacientes atendidos no ambulatório de neoplasias mieloproliferativas da Unifesp e comparou os dados com 12 indivíduos saudáveis. Por meio de citometria de fluxo, os pesquisadores observaram que pacientes com mielofibrose apresentaram uma redução expressiva tanto na proporção quanto no número absoluto de células dendríticas mieloides e plasmocitoides no sangue. As células plasmocitoides, por exemplo, apresentaram queda de mais de quatro vezes em relação aos controles saudáveis. Essa redução foi ainda mais acentuada em pacientes com anemia, esplenomegalia e fibrose grau 3, considerados sinais de doença mais avançada.
A mielofibrose é um tipo de neoplasia que têm como principal característica a produção falha de células-tronco, responsáveis pela origem de todos os componentes do sangue. “Em decorrência destas anormalidades, as fibras que sustentam a célula-tronco se modificam, ficam grossas e enrijecidas, como se fosse uma cicatriz dentro da medula óssea. Essa condição genética é mais comum em pessoas acima dos 50 anos e pode causar sérios transtornos à saúde, como anemia ou esplenomegalia, que é o aumento de tamanho do baço”, explica o Dr. Alex Freire Sandes, hematologista do Fleury Medicina e Saúde, professor da Unifesp e um dos autores do estudo.
Na prática clínica, esses achados ajudam a ampliar a compreensão sobre como o sistema imunológico é afetado pela mielofibrose. As células dendríticas desempenham papel central na defesa contra infecções e na regulação da resposta imune. Sua diminuição pode contribuir para maior vulnerabilidade a infecções virais, alterações inflamatórias e pior controle da progressão da doença.

“A possibilidade de utilizar a quantificação de células dendríticas como indicador de gravidade pode auxiliar na estratificação de risco, no acompanhamento da evolução clínica e, futuramente, no desenvolvimento de estratégias terapêuticas mais personalizadas, inclusive no campo da imunoterapia. Além disso, a identificação dessas alterações celulares abre caminho para o uso de biomarcadores imunológicos no acompanhamento dos pacientes e no refinamento do prognóstico”, frisa o Dr. Sandes.
O artigo, intitulado “Quantitative assessment of innate myeloid cells in myelofibrosis: insights into myeloid and plasmacytoid dendritic cell depletion and disease progression” (Avaliação quantitativa de células mieloides inatas na mielofibrose: perspectivas sobre a depleção de células dendríticas mieloides e plasmocitoides e a progressão da doença) foi publicado na revista científica Annals of Hematology e integra a produção do grupo de pesquisa em Hematologia da Escola Paulista de Medicina da Unifesp.
Acesse o estudo completo: https://doi.org/10.1007/s00277-025-06463-2


