Trombose, sintomas, prevenção, diagnóstico e tratamento | Newslab

Trombose exige precisão, da prevenção à escolha do tratamento

No Dia Mundial da Trombose, novas diretrizes e evidências sobre anticoagulação reforçam o papel da avaliação de risco, do diagnóstico integrado e do acompanhamento individualizado

A prevenção da trombose começa antes do primeiro sintoma. Na internação, após uma cirurgia ou diante de uma suspeita clínica, reconhecer fatores de risco e escolher corretamente os exames pode mudar o percurso do paciente. Neste 13 de outubro, Dia Mundial da Trombose, o tema reúne desafios diretamente ligados à medicina laboratorial, da interpretação do dímero D à investigação de trombofilias e à segurança da anticoagulação.

Em 2026, a campanha coordenada pela International Society on Thrombosis and Haemostasis, ISTH, destaca a saúde das mulheres ao longo da vida. Gestação, puerpério e exposição a determinados tratamentos hormonais fazem parte dessa discussão. A data ocorre em um momento de atualização científica, com uma nova diretriz de embolia pulmonar publicada neste ano e evidências recentes sobre tratamento prolongado em pacientes com câncer. [1, 2, 3]

Um mesmo termo, situações clínicas diferentes

Trombose é a formação de um coágulo dentro de um vaso sanguíneo, capaz de reduzir ou bloquear a circulação. Pode ocorrer em veias ou artérias. Essa distinção importa porque os mecanismos predominantes, a investigação e o tratamento variam conforme o território afetado. A trombose arterial participa de eventos como infarto e acidente vascular cerebral isquêmico. [4]

No sistema venoso, a trombose venosa profunda, TVP, costuma atingir os membros inferiores, embora possa ocorrer em outras regiões. Quando parte do trombo se desprende e alcança a circulação pulmonar, pode causar embolia pulmonar, potencialmente fatal. TVP e embolia pulmonar compõem o tromboembolismo venoso, TEV. [5]

O risco muda conforme o contexto

Segundo os Centers for Disease Control and Prevention, CDC, cirurgia de grande porte, restrição de movimento, câncer e seu tratamento, cateter venoso central, obesidade, idade avançada e história prévia ou familiar de TEV estão entre os fatores associados à doença. A presença simultânea de fatores pode ampliar o risco. [6]

Na saúde da mulher, a avaliação deve considerar contraceptivos contendo estrogênio, determinados esquemas de terapia hormonal da menopausa, gestação e puerpério. O destaque da campanha de 2026 está nessa mudança de risco entre diferentes fases da vida. A análise da exposição hormonal precisa considerar a história clínica e os demais fatores presentes em cada paciente. [1, 6]

Os sinais que exigem investigação

Dor, aumento de temperatura e vermelhidão na região afetada estão entre as manifestações descritas pelo Ministério da Saúde. A TVP pode, entretanto, ocorrer sem sintomas evidentes. Essa possibilidade limita a segurança de avaliações baseadas apenas no que o paciente sente ou no exame físico. [7]

Dímero D, valor diagnóstico depende da pergunta clínica

O dímero D tem utilidade quando faz parte de uma estratégia diagnóstica. As diretrizes da American Society of Hematology, ASH, orientam integrar a probabilidade clínica pré-teste, estimada por critérios validados, ao resultado laboratorial e aos exames de imagem. Em pacientes selecionados com baixa probabilidade, um resultado negativo em ensaio de alta sensibilidade pode permitir a exclusão de TEV dentro do algoritmo indicado. [8]

O NICE recomenda considerar pontos de corte ajustados à idade em pessoas acima de 50 anos. Para o laboratório, isso exige atenção ao ensaio, às unidades reportadas e ao protocolo adotado. O ajuste deve integrar uma estratégia validada de investigação, com interpretação clínica apropriada. [8, 9]

Prevenção hospitalar precisa chegar à prática

As recomendações do NICE orientam avaliar o risco de tromboembolismo e de sangramento na admissão e reavaliá-lo quando o quadro clínico muda. A profilaxia farmacológica deve resultar desse equilíbrio. Medidas mecânicas podem ser indicadas conforme a situação clínica, e a mobilização deve ser estimulada quando possível. [11]

A prevenção inclui orientar o paciente sobre sintomas e cuidados após a alta. O risco associado à cirurgia ou à hospitalização pode persistir fora do hospital, tornando a continuidade das orientações parte do cuidado. [10]

Anticoagulação continua no centro do tratamento

Os anticoagulantes reduzem a formação de novos trombos e a progressão dos existentes ao interferir na coagulação. Seu mecanismo difere do dos trombolíticos, medicamentos capazes de promover a dissolução do coágulo e reservados a indicações específicas. [12]

Para TVP proximal ou embolia pulmonar confirmadas, o NICE recomenda anticoagulação por pelo menos três meses. A escolha do medicamento considera comorbidades, contraindicações e características clínicas. Em pacientes elegíveis, anticoagulantes orais diretos, como apixabana e rivaroxabana, integram as opções recomendadas. [9]

A duração posterior exige reavaliação. A diretriz conjunta de 2026 da American Heart Association e do American College of Cardiology recomenda estender a anticoagulação após a fase inicial de três a seis meses em pacientes com primeiro episódio de embolia pulmonar sem um grande fator de risco reversível ou com fator de risco persistente. A decisão requer acompanhamento dos benefícios e dos riscos. [2]

Essa diretriz também apresenta uma classificação de gravidade que considera o estado clínico, biomarcadores e disfunção ventricular direita. Tratamentos como trombólise sistêmica, intervenções por cateter, trombectomia mecânica e embolectomia cirúrgica são destinados a situações selecionadas, especialmente diante de falência cardiopulmonar ou de sua evolução iminente. [2]

Uma evidência recente na trombose associada ao câncer

Publicado em 2025 no New England Journal of Medicine, o estudo API-CAT investigou a intensidade da anticoagulação prolongada em 1.766 pacientes com câncer ativo e TVP proximal ou embolia pulmonar que já haviam completado pelo menos seis meses de tratamento. Os participantes receberam apixabana em dose reduzida ou plena por mais 12 meses. [3]

A recorrência de TEV apresentou incidência cumulativa de 2,1% no grupo de dose reduzida e 2,8% no de dose plena. O estudo demonstrou não inferioridade da dose reduzida para esse desfecho. Sangramentos clinicamente relevantes ocorreram em 12,1% e 15,6%, respectivamente, com menor incidência no grupo de dose reduzida. [3]

O achado sustenta uma opção para a fase prolongada em pacientes que correspondem à população estudada. Não deve ser extrapolado para a fase inicial da trombose nem para a redução indiscriminada de doses. [3]

Trombofilia, investigar quando o resultado pode mudar a conduta

A investigação de trombofilia exige uma indicação definida. Nas diretrizes de 2023, a ASH apresenta recomendações distintas conforme o evento e a decisão terapêutica em discussão. Sugere, por exemplo, não realizar testes para orientar a duração da anticoagulação em TEV não provocado ou provocado por cirurgia. Em alguns cenários associados à gestação, ao puerpério ou a contraceptivos orais combinados, admite a investigação para orientar o tratamento. Essas recomendações são condicionais e se apoiam em evidência de certeza muito baixa. [13]

O momento da coleta também importa. A British Society for Haematology alerta que anticoagulantes e condições adquiridas podem comprometer a avaliação de proteína C, proteína S e antitrombina. Quando indicada após trombose aguda, a pesquisa dessas deficiências deve ocorrer somente depois de três meses de anticoagulação, com planejamento que considere as interferências. [14]

A mesma diretriz desaconselha testes de variantes genéticas sem relação clinicamente significativa com trombose, como polimorfismos de MTHFR. Ampliar um painel sem uma pergunta clínica definida pode produzir resultados que não contribuem para a decisão terapêutica. [14]

O laboratório acompanha a segurança e os limites dos exames

Hemograma, função renal, função hepática, tempo de protrombina e tempo de tromboplastina parcial ativada integram a avaliação inicial recomendada pelo NICE ao iniciar anticoagulação. Esses dados ajudam a reconhecer condições relevantes para a segurança do tratamento. [9]

Os anticoagulantes orais diretos dispensam monitoramento rotineiro de concentração, mas há situações em que a mensuração pode ser útil. Segundo o ARUP Consult, alterações de absorção, interações medicamentosas, insuficiência renal ou suspeita de falha terapêutica podem justificar testes específicos. Ensaios de atividade anti-Xa calibrados para o fármaco permitem quantificar inibidores diretos do fator Xa. [15]

A interpretação exige cautela. Uma revisão publicada no programa de educação da ASH ressalta que INR e TTPa não quantificam com precisão os níveis desses medicamentos. O ARUP também informa que ainda não há evidência definitiva de ensaios clínicos para ajustar suas doses com base apenas no resultado de atividade anti-Xa. [15, 16]

O cuidado continua depois do evento agudo. Dor e edema persistentes podem fazer parte da síndrome pós-trombótica. Após embolia pulmonar, falta de ar e limitação funcional precisam ser investigadas. A diretriz de 2026 recomenda avaliar sintomas e limitações em cada consulta por pelo menos um ano, para identificar doença pulmonar tromboembólica crônica ou outras causas. [2, 5]

Para os serviços de saúde e os laboratórios, a data reforça uma responsabilidade concreta, reconhecer o risco, usar cada exame na indicação correta e acompanhar o tratamento com atenção à recorrência e ao sangramento.

Referências

  1. ISTH. World Thrombosis Day 2026.
  2. Creager MA et al. 2026 Guideline for the Evaluation and Management of Acute Pulmonary Embolism in Adults. Circulation. DOI 10.1161/CIR.0000000000001415.
  3. Mahé I et al. Extended Reduced-Dose Apixaban for Cancer-Associated Venous Thromboembolism. New England Journal of Medicine. 2025. DOI 10.1056/NEJMoa2416112.
  4. ISTH. What is Thrombosis?
  5. CDC. About Venous Thromboembolism.
  6. CDC. Risk Factors for Blood Clots.
  7. Ministério da Saúde. Trombose.
  8. ASH. Guidelines for diagnosis of venous thromboembolism. Blood Advances. 2018.
  9. NICE. Venous thromboembolic diseases, diagnosis, management and thrombophilia testing. NG158.
  10. CDC. Understanding Your Risk for Healthcare-Associated VTE.
  11. NICE. Reducing the risk of hospital-acquired deep vein thrombosis or pulmonary embolism. NG89.
  12. ISTH. Blood Clot Treatment Options.
  13. Middeldorp S et al. ASH 2023 guidelines, thrombophilia testing. Blood Advances.
  14. Arachchillage DJ et al. Thrombophilia testing, a British Society for Haematology guideline. British Journal of Haematology. 2022;198:443-458. DOI 10.1111/bjh.18239.
  15. ARUP Consult. Direct Xa Inhibitor Levels.
  16. Mithoowani S, Siegal D. DOACs, role of anti-Xa and drug level monitoring. Hematology, ASH Education Program. 2024.