Prevenção da obesidade, o que a balança não revela | Newslab

Obesidade, o que a balança não revela e a ciência já consegue tratar

No Dia Nacional de Prevenção da Obesidade, avanços na avaliação clínica e nas terapias reforçam o papel da medicina laboratorial na identificação de complicações e no acompanhamento dos pacientes

11 de outubro · Dia Nacional de Prevenção da Obesidade

A obesidade exige uma avaliação que ultrapasse o número registrado na balança. A distribuição da gordura corporal, suas repercussões sobre os órgãos e o risco cardiometabólico orientam decisões cada vez mais individualizadas.

Neste 11 de outubro, Dia Nacional de Prevenção da Obesidade, instituído pela Lei nº 11.721/2008, a discussão reúne prevenção, diagnóstico e tratamentos capazes de modificar desfechos de saúde. Para os profissionais de análises clínicas, esse cenário destaca a importância de investigar alterações metabólicas e acompanhar a resposta ao cuidado.

A dimensão do problema aparece nos dados brasileiros. Segundo o Ministério da Saúde, o Vigitel registrou aumento da frequência de obesidade entre adultos das capitais e do Distrito Federal, de 11,8% em 2006 para 25,7% em 2024.

A trajetória da obesidade

25,7%

Frequência de obesidade em adultos das capitais brasileiras e do Distrito Federal em 2024.

Em 2006, o indicador era de 11,8%. Fonte, Vigitel Brasil 2006 a 2024, Ministério da Saúde.

Os resultados se referem à população desses locais, com indicadores construídos a partir de entrevistas telefônicas, e não devem ser apresentados como uma medição direta de todos os brasileiros.

O que o IMC informa e o que precisa ser investigado

O índice de massa corporal continua a integrar a classificação da obesidade. Para adultos, a Organização Mundial da Saúde utiliza IMC igual ou superior a 30 kg/m². Entretanto, a relação entre peso e altura não descreve, por si só, a composição corporal nem estabelece a intensidade das repercussões clínicas do excesso de adiposidade.

Uma comissão internacional publicada em 2025 no The Lancet Diabetes & Endocrinology propôs complementar essa avaliação. O documento recomenda confirmar o excesso de gordura por medidas adicionais, como circunferência da cintura, relações antropométricas ou métodos de composição corporal, conforme a situação clínica.

Obesidade clínica

Excesso de adiposidade acompanhado de disfunções de órgãos ou limitações relevantes das atividades diárias atribuíveis à gordura corporal.

Obesidade pré-clínica

Excesso de adiposidade com função orgânica preservada. Permanecem necessários avaliação de risco, acompanhamento e intervenções apropriadas.

Trata-se de uma proposta de reorganização diagnóstica, cuja incorporação à prática depende dos contextos assistenciais e das diretrizes adotadas.

O laboratório ajuda a reconhecer as repercussões metabólicas

A investigação laboratorial ganha sentido quando responde a perguntas clínicas sobre o metabolismo glicêmico, a presença de dislipidemia e possíveis sinais de comprometimento hepático ou renal. A avaliação dessas condições contribui para definir prioridades e acompanhar resultados, em conjunto com a história clínica, o exame físico e a avaliação funcional.

A diretriz brasileira de 2025 sobre obesidade e prevenção cardiovascular enfatiza a estratificação do risco e o manejo das complicações associadas.

A hemoglobina glicada, por exemplo, auxilia na identificação de pré-diabetes e diabetes e no acompanhamento glicêmico. O exame reflete a exposição à glicose ao longo de aproximadamente dois a três meses. Sua interpretação exige atenção a condições que alteram a relação entre HbA1c e glicemia, incluindo determinadas anemias e variantes da hemoglobina.

No fígado, a doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica, conhecida pela sigla MASLD, merece atenção. As diretrizes conjuntas de EASL, EASD e EASO recomendam investigação de fibrose em grupos de maior risco, como pessoas com diabetes tipo 2 ou obesidade abdominal acompanhada de outro fator de risco cardiometabólico.

A avaliação pode começar pelo FIB-4, calculado com idade, AST, ALT e contagem de plaquetas, e prosseguir com elastografia ou outros métodos, conforme os resultados. O escore estima risco, não confirma isoladamente o diagnóstico.

Prevenção começa antes das complicações

A OMS descreve a obesidade como uma doença crônica resultante da interação entre fatores biológicos, ambientais, sociais e comportamentais. Essa compreensão orienta uma prevenção que considera alimentação, atividade física, sono e condições concretas de vida. Disponibilidade de alimentos, renda e acesso a espaços seguros influenciam as possibilidades de escolha.

No Brasil, o Guia Alimentar para a População Brasileira recomenda que alimentos in natura ou minimamente processados constituam a base da alimentação e orienta evitar ultraprocessados. A proposta valoriza preparações culinárias e a organização das refeições, oferecendo uma referência para ações educativas e políticas públicas.

Na infância e na adolescência, a identificação precoce deve respeitar os critérios de crescimento e desenvolvimento. Os pontos de corte de IMC utilizados em adultos não se aplicam diretamente a essas faixas etárias. O cuidado também precisa evitar estigmatização, discriminação e abordagens que prejudiquem o bem-estar psicológico.

Medicamentos ampliam as possibilidades, com indicações específicas

As terapias baseadas em incretinas ampliaram a capacidade de redução do peso corporal. A semaglutida atua como agonista do receptor de GLP-1, enquanto a tirzepatida combina agonismo dos receptores de GIP e GLP-1.

No Brasil, a Anvisa aprovou a tirzepatida para controle crônico do peso em adultos com obesidade ou com sobrepeso e pelo menos uma comorbidade relacionada ao peso, associada à alimentação com redução calórica e ao aumento da atividade física.

Publicado em 2025 no New England Journal of Medicine, o SURMOUNT-5 comparou os medicamentos em 751 adultos com obesidade sem diabetes tipo 2. Após 72 semanas, a redução média estimada do peso foi de 20,2% com tirzepatida e de 13,7% com semaglutida, nas doses máximas toleradas previstas no protocolo.

SURMOUNT-5 · Redução média estimada do peso em 72 semanas

20,2%
com tirzepatida

13,7%
com semaglutida

Ensaio com 751 adultos com obesidade sem diabetes tipo 2. Os valores representam médias do estudo, nas doses máximas toleradas previstas no protocolo.

O ensaio foi randomizado e aberto, com financiamento da fabricante da tirzepatida. Os eventos adversos mais frequentes foram gastrointestinais, em geral leves ou moderados e concentrados no período de escalonamento das doses. Os resultados descrevem médias de uma população selecionada e não garantem a mesma resposta para cada paciente.

A relevância clínica também pode ser medida por eventos cardiovasculares. No SELECT, publicado no mesmo periódico em 2023, a semaglutida foi avaliada em pessoas com 45 anos ou mais, IMC de pelo menos 27 kg/m², doença cardiovascular estabelecida e sem diabetes.

O desfecho composto de morte cardiovascular, infarto não fatal ou acidente vascular cerebral não fatal ocorreu em 6,5% do grupo semaglutida e em 8,0% do grupo placebo, com razão de riscos de 0,80. Essa evidência se aplica ao perfil estudado e não deve ser generalizada para qualquer pessoa com excesso de peso.

Manutenção dos resultados exige continuidade

A recuperação do peso após a interrupção de uma intervenção é uma questão central no tratamento. Na extensão do STEP 1, publicada em Diabetes, Obesity and Metabolism, participantes que haviam recebido semaglutida recuperaram, em média, cerca de dois terços do peso perdido no ano seguinte à retirada do medicamento e da intervenção estruturada de estilo de vida. Parte das melhoras cardiometabólicas também se aproximou dos valores iniciais.

Em dezembro de 2025, a OMS publicou recomendações condicionais para o uso prolongado de terapias baseadas em GLP-1 no tratamento da obesidade em adultos, integrado ao cuidado abrangente.

A classificação como condicional considera limitações dos dados de longo prazo, custos, preparação dos sistemas de saúde e equidade de acesso. A decisão terapêutica exige avaliação individual e acompanhamento regular.

Cirurgia e acompanhamento nutricional permanecem essenciais

A cirurgia bariátrica e metabólica continua a integrar o tratamento de pacientes selecionados. No Brasil, a Resolução CFM nº 2.429/2025 atualizou os critérios e reconheceu a elegibilidade de determinados pacientes com IMC entre 30 e 35 kg/m² e condições clínicas específicas. A indicação depende de avaliação especializada e do cumprimento dos requisitos previstos na norma.

O acompanhamento após a operação inclui vigilância de deficiências nutricionais. Diretrizes da American Society for Metabolic and Bariatric Surgery orientam avaliação de micronutrientes como ferro, vitamina B12, folato, cálcio e vitamina D, conforme o procedimento e as necessidades do paciente. Nesse percurso, os exames laboratoriais sustentam decisões sobre suplementação e investigação de alterações.

O 11 de outubro convida os serviços de saúde a transformar conscientização em cuidado contínuo.

Prevenir o ganho excessivo de peso, reconhecer complicações, escolher intervenções adequadas e acompanhar sua segurança são tarefas complementares.

Para a medicina laboratorial, a contribuição está na informação bem interpretada, capaz de orientar decisões e documentar a evolução clínica de cada paciente.